Nesse primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV já é possível vislumbrar, um pouco, qual é sua perspectiva norteadora de e para a Igreja em seu pontificado.
Nessa reflexão, apresentarei, de forma simples e sem muita pretensão, alguns pontos que possam revelar silhuetas da Igreja, até então, testemunhadas pelo Leão XIV.
Importante destacar que o compromisso com o Concílio Vaticano II é constante. Por isso, seguir no pontificado como um Papa conciliar, no que isso tem de consequências e desdobramentos, tem sido algo constatado. O que o faz responsável em dar continuidade a certos passos eclesiológicos deixados pelo antecessor Papa Francisco – sobretudo no que corresponde à sinodalidade. Outra constatação é sua identificação com a experiência de Igreja na América Latina. Não é possível compreender certas posturas do Papa Leão como pastor não compreendendo a caminhada da Igreja no continente latino-americano, onde viveu boa parte de sua vida como religioso agostiniano, sacerdote e bispo.
A seguir, apresentarei três “recortes” eclesiológicos que acho interessante da eclesiologia do Papa Leão XIV. Vejamos:
1- Uma Igreja unida em Cristo: a preocupação com a unidade sempre foi uma constante do Papa. Por isso, ele escolheu como lema para o ministério episcopal: In Illo uno unum, expressão de Santo Agostinho (Exposição sobre o salmo 127) – “naquele único – isto é, Cristo – somos um só”. Há uma compreensão de que na Igreja a comunhão se realizará, de fato, quando os fiéis convergirem no Senhor Jesus. Diz o Papa Leão: “Quanto mais fiéis e obedientes a Ele formos, mais estaremos unidos entre nós. Por isso, como cristãos, somos todos chamados a rezar e a trabalhar juntos para alcançar, passo a passo, esse objetivo, que é e permanece uma obra do Espírito Santo”[1]. O Papa, em uma homilia, disse: “Cristo pede, de fato, que ‘todos sejam um’” (Jo 17,21). Trata-se do maior bem que se pode desejar, porque essa união universal realiza, entre as criaturas, a eterna comunhão de amor na qual se reconhece o próprio Deus: como Pai que dá a vida, Filho que a recebe e Espírito que a partilha. O Senhor não quer que, para nos unirmos, nos reduzamos a uma massa indistinta, como um bloco anônimo: deseja, antes, que sejamos um: “como tu, Pai, está em mim, e eu em ti. Que também eles estejam em nós”[2]. E essa unidade da Igreja é uma das quatro notas da Igreja: uma, santa, católica e apostólica. Notas que são encontradas na Constituição Dogmática sobre a Igreja, intituladaLumen Gentium.
2 – Uma Igreja para os pobres: o Papa Leão, com a Exortação Apostólica Dilexi Te sobre o amor para com os pobres (DT), deixou claro que em sua eclesiologia tem os pobres como opção fundamental. “A santidade cristã floresce, com frequência, nos lugares mais esquecidos e feridos da humanidade. Os mais pobres entre os pobres – que não apenas carecem de bens, mas também de voz e do reconhecimento da sua dignidade – ocupam um lugar especial no coração de Deus. São os preferidos do Evangelho, os herdeiros do Reino (cf. Lc 6,20). É neles que Cristo continua a sofrer e a ressuscitar. É neles que a Igreja reencontra o chamamento a mostrar a sua realidade mais autêntica (DT n. 76).” Os pobres são considerados como sujeitos na Igreja. E na DT cita a mensagem final dos bispos na V Conferência do Episcopado Latino-americano: “As agudas diferenças entre ricos e pobres nos convidam a trabalhar com maior empenho para ser discípulos que sabem compartilhar a mesa da vida, mesa de todos os filhos e filhas do Pai, mesa aberta, inclusiva, na qual não falte ninguém. Por isso, reafirmamos nossa opção preferencial e evangélica pelos pobres”(DT n. 99).
3 – Uma Igreja alicerçada na Doutrina Social da Igreja (DSI): outro traço marcante da eclesiologia do Papa Leão é a relevância dada à DSI, sobretudo quando se trata de alguns temas. Inclusive ter sido nomeado como Leão XIV já diz muito, sobretudo quando se recorda de que Leão XIII foi o Papa que lançou a Encíclica Rerum Novarum (15/03/1891): Das coisas novas – a condição dos operários. Entre os temas que aparecem nos pronunciamentos, pode-se destacar: a paz, cultura digital, inteligência artificial, ecologia, justiça social etc. “Em nosso diálogo, gostaria que tivéssemos em mente três palavras-chave, que constituem os pilares da ação missionária da Igreja […]. A primeira palavra é paz. Muitas vezes a consideramos uma palavra ‘negativa’, ou seja, como mera ausência de guerra e conflito, visto que o confronto faz parte da natureza humana e nos acompanha sempre […] Na perspectiva cristã […] a paz é, antes de tudo, um dom: o primeiro dom de Cristo: ‘Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz’ (Jo 14,27). Contudo, trata-se de um dom ativo, envolvente, que interpela e compromete cada um de nós […]. A segunda palavra é justiça. Buscar a paz exige praticar a justiça. Como já mencionei, escolhi meu nome pensando, antes de tudo, em Leão XIII, o Papa da primeira grande Encíclica social, a Rerum Novarum. Neste tempo de mudança de época que estamos vivendo, a Santa Sé não pode deixar de fazer ouvir sua voz diante dos inúmeros desequilíbrios e injustiças que conduzem, entre outras coisas, as condições indignas de trabalho e as sociedades cada vez mais fragmentadas e conflituosas. É necessário, além disso, empenhar-se para remediar as desigualdades globais, que fazem com que a opulência e a miséria abram fossos profundos entre continentes, países e até mesmo dentro de uma mesma sociedade […]. A terceira palavra é verdade. Não é possível construir relações verdadeiramente pacíficas, nem mesmo no seio da Comunidade Internacional, sem verdade. Quando as palavras assumem conotações ambíguas e ambivalentes, e o mundo virtual, com sua percepção alterada da realidade, ganha controle sem limites, torna-se difícil construir relações autênticas, pois se perdem as premissas objetivas e reais da comunicação. Por sua vez, a Igreja nunca pode eximir-se de dizer a verdade sobre o homem e sobre o mundo, recorrendo, quando necessário, a uma linguagem franca, que pode suscitar alguma incompreensão inicial.” [3]
Terminando, acredito que o Papa Leão seguirá sendo um pontífice que não desistirá de ser um Pastor em defesa da Paz, da Justiça e da Verdade na Igreja e no Mundo. E, como agostiniano, também não deixará de testemunhar uma eclesiologia que se faz missionária em nome da comunhão fraterna, do diálogo esperançoso e da misericórdia evangélica.

Frei Luiz Augusto de Mattos
Doutor em Teologia Moral
Artigo publicado na edição especial do Jornal Inquietude On-line, em homenagem ao primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV – 8 de maio de 2026.
Foto: VaticanNews
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[1] PAPA LEÃO XIV, No único Cristo, somos um. Discurso aos representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais e de outras religiões, 19/5/2025.
[2] PAPA LEÃO XIV, Uma só coisa no único Salvador. Homilia por ocasião da Santa Missa para o Jubileu das famílias dos avós e das pessoas idosas, 01/6/2025.
[3] PAPA LEÃO XIV, Paz, verdade e justiça – Discurso por ocasião da Audiência ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, 16/5/2025.