Santo Agostinho, o Papa e Trump

Passada a oitava pascal, o Papa Leão XIV empreendeu uma viagem apostólica de dez dias a quatro países africanos: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. A primeira parada será, exatamente, no país em que viveu Santo Agostinho. Hippo Regius, sé episcopal de Agostinho, é a atual cidade de Annaba, situada na costa nordeste da Argélia. A cidade, inclusive, abriga o sítio arqueológico de Hipona e uma basílica dedicada ao filho de Santa Mônica, lugares visitados pelo Papa no segundo dia da viagem.

A ida de Leão XIV aos lugares agostinianos das origens carrega um significado especial. Obviamente, essa não é a primeira vez que o Frei Robert Prevost, OSA, visita a Argélia. Mas, é a primeira vez que o faz como bispo de Roma. Independentemente, o gesto continua especial: é como se o “filho” voltasse ao lugar onde viveram seus pais. É como se reconectar com a própria origem.

Desde que foi eleito, o Papa não faz questão de esconder sua vinculação com Santo Agostinho e a Ordem herdeira de seu carisma. Em seus pronunciamentos é fácil encontrar citações do Hiponense. Em várias ocasiões fez questão de demonstrar seu afeto e apresso por seus irmãos de hábito e regra. Mas, há um elemento digno de destaque nesta vinculação; elemento relevante, sobretudo, nestes dias em que o Papa tem sido duramente atacado pelo presidente dos Estados Unidos: à fúria bestial dos malvados, o Papa escolheu responder como Santo Agostinho.

Desde que assumiu a Sé de Roma, como 267º sucessor do Apóstolo Pedro, Leão XIV tem lidado com diversos desafios. Internamente, cabe-lhe conciliar uma variada gama de tensões que tocam desde a agenda sinodal ao relacionamento com a herética FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio X). Externamente, cabe-lhe sustentar, com voz profética, a primazia da paz frente à triste realidade de uma “terceira guerra mundial em pedaços”.

A postura crítica do Papa com relação aos conflitos que estão em curso pelo mundo afora acarretou, como era de se esperar, a reação violenta dos patrocinadores da morte. O exemplo mais contundente (e estúpido) vem do presidente dos Estados Unidos. Em uma postagem descabida de senso, o líder da Casa Branca acusou o Papa de “ser débil em matéria de delinquência e péssimo em política exterior”. De acordo com Donald Trump, o Papa ignora o sucesso do seu governo e prefere privilegiar criminosos quando insiste em pedir o fim da guerra, denunciando as atrocidades trumpistas.

O absurdo chega a tal ponto que o presidente chega a dizer que o Papa só é Papa porque ele – Trump – impera nos Estados Unidos; supondo que a eleição de Prevost foi uma “jogada política” para facilitar o diálogo com o suposto “todo-poderoso”. E segue, afirmando que “Leão deveria se recompor como Papa, usar o bom senso, parar de agradar a esquerda radical e focar em ser um grande Papa — não um político. Isso está prejudicando muito ele e, mais importante, está prejudicando a Igreja Católica”.

Diante das críticas bestiais, o Papa preferiu tomar outro caminho como resposta. Na viagem apostólica à África, o Pontífice respondeu aos jornalistas que não é um político, e que não tem a intenção de entrar em debate com Trump, porque a mensagem continua sendo a mesma: promover a paz. E isto vale para todos os líderes mundiais. Literalmente, afirmou: “não tenho medo do governo Trump. Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação, e a buscarem formas de evitar a guerra sempre que possível”.

A postura de Leão XIV e a situação envolvendo a Igreja e um “império” não é novidade na história bimilenar do cristianismo. O “pai espiritual” de Leão, Santo Agostinho de Hipona, foi testemunha de um drama parecido. E, considerando a experiência do hiponense, Leão comprova ser mesmo “um agostiniano; um filho de Santo Agostinho”.

Em 410 d.C., Roma foi invadida e saqueada por Alarico, rei dos visigodos. Os “pagãos”, acusaram os cristãos de serem responsáveis pela tragédia. Segundo eles, o fato de muitos romanos terem se convertido ao cristianismo, abandonando a religião tradicional do império, teria atraído a ira dos deuses que, como castigo, teriam permitido a queda de Roma. Além disso, de acordo com as acusações pagãs, o fato do cristianismo difundir uma mensagem de paz, misericórdia, fraternidade e perdão, e uma moral pautada na justiça e no respeito, promovia uma cultura “frágil”.

Em resposta a estas acusações, Santo Agostinho escreveu a famosa obra A Cidade de Deus. Como ele mesmo diz, nas Retratações, “inflamado pelo zelo pela casa de Deus, decidi escrever os livros de A cidade de Deus contra as blasfêmias e erros dos adoradores dos falsos e muitos deuses, que denominamos pelo nome mais vulgar de pagãos, que se empenham em atribuir o fato da invasão de Roma à religião cristã, e começaram a blasfemar violenta e rancorosamente contra o Deus verdadeiro” (cf. Retratações, II, 43, 1).

A obra está composta por vinte e dois livros. Na primeira parte, “os cinco primeiros livros refutam aqueles que desejam de tal modo a prosperidade nos bens terrenos que pensam ser necessário o culto aos muitos deuses que os pagãos adoravam por costume; e, porque esse culto é proibido, empenham-se em dizer que, por isso, se originaram e abundam esses males. Os cinco livros seguintes falam contra aqueles que confessam que jamais deixarão de existir esses males, nem faltarão os mortais […] e que o culto aos vários deuses, pelos quais se oferecem sacrifícios, é útil devido à vida que haverá depois da morte. Portanto, nestes dez livros, refutam-se essas duas fúteis opiniões contrárias à fé cristã”. (Retratações, II, 43, 1)

A segunda parte da obra contém doze livros. “Os primeiros quatro livros abrangem a origem das duas cidades, das quais uma é de Deus, a outra, deste mundo. Os quatro seguintes falam de seu progresso e desenvolvimento. Os outros quatro, que são os últimos, tratam dos fins que lhe são devidos”. (Retratações, II, 43, 2).

De acordo com Agostinho, a queda de Roma resulta de sua própria soberba (cf. Civ. Dei, XIV, 14). Por ter preferido viver a partir de si mesma e respondendo, sem limite, aos caprichos do próprio orgulho e ambição, a sociedade romana se empurrou para o fracasso. “Dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor-próprio, levado ao desprezo de Deus, fundou a cidade terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, fundou a cidade celestial. Gloria-se a primeira em si mesma e a segunda em Deus, porque aquela busca a glória dos homens enquanto esta tem por máxima glória a Deus, testemunha de sua consciência. Aquela ergue a cabeça em sua própria glória; e esta diz ao seu Deus: ‘Tu és a minha glória e aquele que me levanta a cabeça’. […] Aquela se deleita em sua própria força, representada na pessoa de seus governantes; a outra diz ao seu Deus: ‘Eu te amarei, ó Senhor, minha força’.” (Civ. Dei, XIV, 28)

A resposta do Papa Leão aos “mensageiros da morte”, neste sentido, coincide com aquela oferecida, em seu tempo, por Agostinho. Aos acusadores do cristianismo, outrora, o bispo de Hipona respondeu demonstrando-lhes o peso de sua própria responsabilidade no próprio fracasso. Aos acusadores de hoje, o bispo de Roma responde deixando claro que “é escravo da morte aquele que virou as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e do próprio poder o ídolo mudo, cego e surdo (cf. Sl 115, 4-8), ao qual sacrifica todos os valores e diante do qual pretende que o mundo inteiro se ajoelhe. Basta da idolatria de si mesmo e do dinheiro! Basta de ostentação da força! Basta de guerra! A verdadeira força manifesta-se no serviço à vida.”

A Igreja tem consciência de sua influência na marcha da história; por isso o Papa faz questão de deixar clara a sua fidelidade ao Evangelho da paz. As ameaças dos malvados tendem à frustração. Como disse, Santo Agostinho, no início da magnífica obra A Cidade de Deus: “a gloriosa cidade de Deus prossegue em seu peregrinar através da impiedade e dos tempos, vivendo cá embaixo, pela fé; com paciência, espera a firmeza da mansão eterna, enquanto a justiça não se converte em juiz, o que há de conseguir por completo, depois, na vitória final e perfeita paz.” (Civ. Dei, I, Prólogo).

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia

Imagem: Pope Leo XIV in Algeria  (@Vatican Media)