Quo vadis, humanitas?

Quo vadis é um filme épico estadunidense (1951), baseado no romance homônimo do escritor polonês Henryk Sienkiewicz, ambientado na Roma Antiga. O general Marcus Vinicius, após três anos de campanha, retorna a Roma onde se apaixona por uma jovem da alta sociedade, Lígia, que era cristã. Ele salvará a amada e sua família da condenação das autoridades romanas. O imperador Nero manda atear fogo num conjunto de bairros pobres da cidade, os quais queria remodelar com padrão de luxo. E joga a culpa nos cristãos, promovendo uma brutal perseguição. Na fuga dos cristãos, estava o apóstolo Pedro. Nos arredores da cidade, aparece-lhe Jesus. E Pedro lhe pergunta: Quo vadis, Domine? (Aonde vais, Senhor?). E Jesus lhe responde: “Já que abandonas o meu povo, vou a Roma para ser crucificado novamente”. Então Pedro entende tudo e desiste da fuga; volta a Roma, onde é crucificado, testemunhando com coragem a sua fé. O romance retoma dados da tradição cristã, segundo os quais São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo.

No início deste ano, a Comissão Teológica Internacional publicou, sob o aval do Papa Leão XIV, um interessante documento com o título “Quo vadis, humanitas? – Reflexões sobre a antropologia cristã perante alguns cenários sobre o futuro do ser humano”. O texto reflete sobre os avanços tecnológicos e sua influência na vida do ser humano, as modificações nas concepções de tempo, espaço e relações. Por um lado, valoriza a tecnologia, como obra da inteligência e da genialidade humana, dons preciosos dados por Deus ao homem para colaborar com Ele na obra da criação. Por outro lado, o documento alerta sobre o perigo do mau uso da tecnologia, que pode acarretar danos terríveis à vida no planeta, ao próprio ser humano, sobretudo aos mais pobres.

No preocupante cenário do mundo contemporâneo, há tendências que apresentam visões distorcidas do ser humano, desconsiderando a sua unidade fundamental como corpo e espírito, apresentando propostas de desenvolvimento que o descaracterizam como criatura, elevada à condição de filho de Deus. Entre essas tendências encontram-se os movimentos transumanista e pós-humanista.

O transumanismo tem como princípio que o ser humano deve superar a sua condição biológica, assumindo ele mesmo a condução de sua evolução, transformando-se para melhor com sua capacidade racional e tecnológica. Assim deve promover cada vez mais o melhoramento e o aprimoramento de si mesmo, usando todos os recursos possíveis, não apenas com as próteses, órteses, compostos químicos, potencialização de sua inteligência e outras capacidades. Mas também com a modificação de seu próprio corpo, que poderá assumir outras formas ou até mesmo ser substituído por outro corpo, como se a mente pudesse sobreviver independentemente do corpo original. Seria algo assim semelhante a um computador, em que a mente (como um software) pudesse ser transferida para outro suporte (hardware). Não estamos falando da vida eterna, como a entende a revelação cristã. A pretensão é superar não apenas o envelhecimento, mas a própria morte. A salvação aconteceria já nesta vida ou na nova forma, sempre em transformação, que o transumanismo acredita poder promover.

O pós-humanismo, por sua vez, não fala apenas em melhoramento ou aprimoramento da condição humana, mas na total superação do humano como hoje nós o entendemos. O transumanismo seria uma etapa que anuncia o pós-humano. Uma versão simplificada dessa concepção é o hibridismo homem-máquina, o advento do ciborgue, como aparece na ficção científica. Nesse sentido, o pós-humanismo se caracteriza como um anti-humanismo: o ser humano, como ainda nós o compreendemos, não tem futuro, é falho e está falido. O futuro pertence a um outro ser, pós-humano, que salvará o planeta de sua destruição. A vida, como a entendemos hoje, será totalmente reinventada, de uma forma que mesmo a ficção científica mal consegue entrever. Parece absurdo, mas há grupos que não só pensam assim, mas desenvolvem projetos caríssimos, financiados por grupos poderosíssimos, as famosas hightechs, que formam no Ocidente o império GAMA (Google, Apple, Meta e Amazon), sem falar nas outras empresas tecnológicas do Oriente, como as da China, por exemplo. No cenário de uma terceira guerra mundial, já estamos assistindo a uma verdadeira “guerra tecnológica”.

Diante desse conturbado cenário, o documento citado propõe-se a refletir sobre o mistério do ser humano, sua identidade e destino, à luz da revelação cristã, em que a razão, iluminada pela fé, procura estabelecer uma comparação entre os novos horizontes antropológicos e as exigências perenes da condição humana. Em todas as propostas de desenvolvimento humano, deve-se fazer um discernimento entre os elementos que são compatíveis com o Evangelho e os que lhe são contrários, entre as contribuições positivas e os aspectos ideológicos. É necessário fazer uma apreciação mais profunda do significado de Jesus Cristo e seu Evangelho, pois Cristo é o salvador do mundo e a autêntica imagem e modelo da realização humana.

Tendo como foco essa perspectiva, o documento trabalha quatro aspectos ou categorias, que correspondem aos quatro capítulos. Em primeiro lugar, aborda a noção de desenvolvimento, que está na base das muitas novidades tecnológicas e sociais em curso, entre elas os citados movimentos transumanista e pós-humanista. A necessidade de garantir um desenvolvimento humano integral leva então a refletir sobre a categoria de vocação, como chave de compreensão antropológica (o que constitui o ser humano). Daí se passa ao tema da identidade humana, concebida tanto em sua dimensão pessoal como social. Por fim, aprofunda-se a condição dramática, ou seja, o drama concreto da história do homem, que, como ser livre, é chamado, em sua identidade, a dialogar com os novos desafios tecnológicos.

Como um aperitivo, destaco aqui apenas alguns temas sugestivos que merecem a nossa atenção. Cada pessoa é um dom no seio de um nós: cada um de nós é um dom gratuito que nos precede. Às vezes ouvimos adolescentes e jovens dizerem: “Eu não pedi para nascer!”. Outros podem querer se desresponsabilizar de suas vidas ou não encontram um sentido para viver. É necessário apropriar-se desse dom, dando forma à própria identidade, como uma tarefa a ser realizada na aventura da vida, uma tarefa intransferível, pois dessa maneira é que podemos dar nossa contribuição original e única à história humana, correspondendo à nossa vocação. Esse dom é acolhido dentro de um “nós”, de uma comunidade à qual cada pessoa pertence e à qual cresce, num “nó de relações”.

A vida há de ser descoberta como uma vocação, em que a realização pessoal acontece na medida em que se desenvolve como um dom para os outros. A existência de cada pessoa está inserida numa história, num tempo e num espaço precisos, e desperta para a consciência de si mesma no interior de relações que expressam uma pertença que a precede e a fundamenta. Dessa forma, reencontra o seu significado original como chamado à vida: a vida do ser humano é vocação. O ser humano é chamado por Deus a colaborar com Ele na obra de sua criação. A autêntica identidade do ser humano se constrói segundo o desígnio de Deus, numa contínua interação de relações: da pessoa consigo mesma, com seus semelhantes, com a natureza, com o mundo, com o próprio Deus. Não se trata simplesmente de fazer projetos, de programar o futuro, de encontrar um trabalho para ganhar a vida e melhorar o mundo. A questão séria na vida, entendida como vocação, é realizar a própria identidade pessoal como dom para os outros.

Essa não é uma tarefa simples, pois há vários aspectos e dimensões que envolvem o ser humano, em suas múltiplas relações e a complexidade do mundo em que vivemos, entre as quais se destacam, no cenário contemporâneo, as conquistas tecnológicas. A nossa identidade, dom e tarefa, se desenvolve em cada nova etapa da vida: com os outros, com o mundo, com Deus, acolhendo e respeitando as diferenças. Essas relações tornam-se significativas para a identidade se não forem vividas numa lógica egoísta e de fechamento, uma vez que o ser humano chega a si mesmo com o outro e em relação aos outros.

A identidade autêntica exige uma experiência real da alteridade. Nesse sentido, é necessário construir laços sólidos por meio do diálogo em todas as instâncias da sociedade (família, grupos de trabalho e estudo, comunidades, cidades, povos e países). Esse diálogo deve ser entendido como a capacidade de ouvir o outro como outro, isto é, pelas razões que o tornam irredutível e diferente. É no contexto desse diálogo que se realiza uma identidade não excludente, mas consistente e capaz de reconhecer e propor a todos a experiência humana elementar.

Em meio a tantas transformações do mundo atual, principalmente possibilitadas pela tecnologia, os temas da identidade humana, sua vocação e missão, a capacidade de conviver, dialogar e escutar constituem um autêntico caminho proposto pelo “humanismo cristão”, pontos de encontro obrigatórios para o debate acerca do futuro da humanidade.

No romance Quo vadis, em meio a Roma em chamas, é Pedro quem pergunta ao Senhor (Quo vadis, Domine? – Aonde vais, Senhor?). Sugestivamente, o documento que aqui apresentamos, inverte o sujeito. É Jesus quem pergunta ao mundo em chamas: Quo vadis, humanitas? (Aonde vais, humanidade?). Qual será a resposta que nós, hoje, daremos ao Senhor? Uma resposta que nos envolve e compromete a cada um de nós no seio da família humana.

Fica aí, então, a sugestão de duas leituras interessantes (e também desse filme épico), para nos iluminar na ineludível tarefa de viver uma vida plena de sentido, em diálogo e interação com os muitos desafios de nosso tempo, que não são tempos ruins nem difíceis, são nossos tempos, somos nós mesmos, como nos aponta Santo Agostinho.

Sugestões:
Documento da Comissão Teológica Internacional: Quo vadis, humanitas – Reflexão sobre a Antropologia Cristã perante alguns canários sobre oo futuro do ser humano

Livro: Quo vadis, de Henrick Sienkiewicz
Romance histórico do escritor polaco Henryk Sienkiewicz, originalmente publicado em 1895. Ambientado durante o governo de Nero na Roma Imperial, tem como tema a perseguição que se abateu sobre os cristãos após o Grande Incêndio de Roma. Editora Sétimo Selo, edição de 2023, 556p.

Filme: Quo vadis (1951, com Robert Taylor e Deborah Kerr, em technicolor).

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA
Artigo publicado na coluna Reflexão, do Jornal Inquietude On-line, edição de março de 2026.

Imagem de capa: Annibale Carracci (1602) – Domínio Público