A atmosfera que envolve a Páscoa é frequentemente confundida com um conjunto de celebrações que devemos realizar em memória da vitória de Jesus Cristo sobre a morte. E soma-se a isso a oportunidade de descansarmos sobre um longo período de feriados, de comermos chocolates e de nos reunirmos com as pessoas que amamos. Em verdade, esta parece ser uma das mais importantes manifestações de gratidão pela vida que se apresenta como ressurreição.
No entanto, para o santo bispo de Hipona, Agostinho, estes dias pascais deveriam funcionar como uma metonímia da própria existência humana: um tempo de passagem que antecipa a glória eterna. Estamos, durante a Páscoa, imersos em um período de reconciliação com Deus através de Jesus. Se a vida presente é um exílio de suspiros, a Páscoa é o momento de afinar o instrumento da alma para a harmonia da eternidade. Diante dessa contagem regressiva litúrgica, resta-nos um corajoso exame de consciência. Será que estamos prontos para abandonar o simulacro de piedade e abraçar uma verdadeira mudança diante das pequenas crueldades que vivemos em nossos cotidianos?
Para Santo Agostinho, a conversão não é uma abstração teológica, mas um retorno urgente ao fundamento do ser humano. A sua antropologia nos leva a um despertar de um sono perigoso que muitos de nós, por presunção ou negligência, insistimos em prolongar. Sobre essa passagem decisiva, da vida de desordem para uma conversão em Deus, o santo de Hipona nos recorda: “O que é celebrar a Páscoa, senão passar da morte dos seus próprios pecados à vida dos justos?” (Sermão 347, 1).
A conversão é, portanto, o ato de tornar boa uma vida que, até então, é dissipada pelos nossos próprios desejos desordenados. É a possibilidade de reconhecer que o Criador nos espera com paciência para que não pereçamos na demora da nossa escolha de sermos pessoas melhores. A conversão, para Agostinho, é uma decisão pessoal que possui uma gravidade absoluta e transformadora para os seres humanos e suas relações interpessoais.
Assim, temos a oportunidade de compreender que este tempo cronológico, o tempo pascal presenteado pela liturgia da Igreja, é apenas o cenário para a escolha de uma mudança que ocorre no interior da nossa vontade de crescer como seres humanos. Agostinho reforça que a esperança deve ser o motor da nossa pressa: “Como deve velar na alegria o amigo de Cristo, quando seu inimigo vela na dor?” (Sermão 219, 1).
Todavia, essa arquitetura interna do coração não se sustenta por si só. Ela exige o respaldo de andaimes externos a cada um de nós. Não existe, na visão agostiniana, uma espiritualidade desencarnada. A conversão é uma decisão pessoal com ressonância profunda na vida comunitária e nas práticas possíveis de serem realizadas por todos os seres humanos. A alegria pascal, composta pela tríade (fé, esperança e caridade), é o remédio prescrito para elevar a alma e santificar o corpo. Contudo, o seu valor é nulo se não transbordar em caridade concreta: “Com Sua ressurreição, Nosso Senhor Jesus Cristo converteu em glorioso o dia que Sua morte havia transformado em luto.” (Sermão 221, 1).
A verdadeira mudança de direção (ou seja, a Metanoia) manifesta-se na capacidade de reconciliação. A Páscoa é o tempo de repensarmos as nossas relações interpessoais, as inimizades, os rancores e as frustrações que alimentamos ao longo de nossa vida. Pois, se a negligência ou a soberba mantiveram muros entre irmãos até agora, é necessário que a caridade, a partir de Cristo Jesus – em sua paixão, morte e ressurreição – construa novas pontes.
Assim, a urgência do perdão como prova da conversão, nas palavras de Santo Agostinho, nos exorta a contemplar uma nova criação: “A chama queima, a mecha se consome e a cera se espalha gota a gota. A sabedoria ensina, a alma se arrepende e a carne derrama lágrimas.” (Sermão 341, 2). Essa transformação tem um poder tão avassalador que ninguém deve se considerar excluído da misericórdia de Deus neste tempo pascal.
E isso aprendemos sempre em uma leitura aprofundada da Sagrada Escritura. Por exemplo, a personagem bíblica do Novo Testamento Pedro nos ensina que aquele que negou por medo tornou-se, pela graça, a rocha sobre a qual a Igreja foi edificada. Especificamente, ao refletir sobre o exemplo de conversão desse apóstolo, Agostinho de Hipona nos lembra que a fraqueza humana não é maior que a força da restauração divina: “Para expiar sua falta, ele já tinha derramado abundantes lágrimas, quando o Salvador, em sua Paixão, lançou sobre ele Seu olhar e ele chorou amargamente.” (Sermão 398, 3).
Portanto, a conversão, para o santo bispo africano, é a integração perfeita entre o querer interior e o agir exterior. Ela ultrapassa o limite do período de quarenta dias que antecedem a Páscoa do Senhor para se transformar no treinamento intensivo para o que deve ser a postura diária de um cristão.
A Páscoa nos convida a ressuscitarmos de corpo e alma com Cristo Jesus. A ressurreição nos tira da inércia para ganharmos um novo sentido para a vida. O tempo é um recurso finito e a santidade não é um prêmio de consolação para os tardios. É necessário buscarmos a leveza daqueles que têm pressa em amar. Se acreditamos que após a morte virá a ressurreição, que desculpa resta para não acreditarmos que somos capazes de mover-nos e abraçarmos a nossa mudança de vida?
Os chocolates que, porventura, comeremos neste tempo da Páscoa se dissolverão em nossas bocas e nos deixarão saciados por pouco tempo. Porém, a vida eterna que recebemos em Cristo Jesus permanece para sempre, como doçura que nunca se acaba, para aqueles que creem na conversão, e no fim da inércia, que gera a Ressurreição.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Artigo publicado na coluna Fala Agostinho, do Jornal Inquietude On-line, edição de março de 2026.
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