A primeira metade do século XXI tem sido marcada por acontecimentos que recolocam diante da humanidade um problema antigo, mas nunca superado: a guerra. Nos últimos anos, assistimos a uma sucessão de conflitos armados que reacenderam tensões geopolíticas, ameaças nucleares e crises humanitárias em diferentes regiões do mundo. A guerra na Ucrânia, a escalada de violência no Oriente Médio e tantos outros conflitos menos visíveis ao grande público indicam que, apesar do discurso civilizatório que acompanha a modernidade, a violência organizada entre povos e nações permanece como um traço persistente de nossa história.
Num primeiro momento de descuido, poderíamos concluir que a guerra seja um fenômeno excepcional, fruto de circunstâncias políticas específicas ou resultado de antagonismos localizados. Contudo, uma observação mais cuidadosa revela que essa interpretação é insuficiente. A guerra não é um evento isolado na história humana; ela acompanha o desenvolvimento das civilizações desde as suas origens. Portanto, se quisermos compreendê-la de maneira responsável, torna-se necessário ir além das explicações simplificadoras que frequentemente aparecem no debate público.
Algumas interpretações atribuem a origem dos conflitos contemporâneos a rivalidades religiosas milenares. Outras insistem em apresentá-los como disputas inevitáveis entre grandes potências pela hegemonia global. Há ainda quem recorra a uma visão fatalista da natureza humana, segundo a qual a guerra seria uma consequência inevitável da condição humana. Embora cada uma dessas perspectivas possa conter algum elemento de verdade, nenhuma delas é capaz de explicar plenamente a complexidade do fenômeno da guerra.
Desse modo, torna-se necessário ampliar o horizonte da reflexão e recorrer à tradição intelectual que, ao longo da história, procurou compreender os limites éticos da violência. Nesse campo, poucas reflexões foram tão influentes quanto aquelas formuladas por Agostinho de Hipona.
Agostinho viveu num tempo marcado por profundas transformações políticas e sociais. O Império Romano atravessava um período de declínio e instabilidade, e a guerra fazia parte da experiência cotidiana de muitas sociedades daquele tempo. Longe de glorificar a violência, o bispo de Hipona procurou compreender suas causas à luz de uma reflexão moral sobre a condição humana. Para ele, a guerra não é uma expressão natural da ordem do mundo, mas o resultado da desordem provocada pelas paixões humanas — sobretudo pelo orgulho, pela ambição e pela vontade de dominação.
Ainda assim, Agostinho reconhecia que, numa realidade histórica marcada por injustiças e conflitos, a sociedade poderia recorrer à força para preservar a ordem e proteger os inocentes. Foi nesse contexto que ele formulou uma ideia que atravessaria toda a tradição cristã: mesmo aqueles que fazem a guerra desejam, em última instância, alcançar a paz. Em sua obra “A Cidade de Deus”, ele afirma que “a paz é o fim que a guerra procura” (A Cidade de Deus, XIX, 12). Essa afirmação não constitui uma legitimação da violência, mas uma tentativa de reconhecer que o objetivo último de qualquer conflito deveria ser o restabelecimento da ordem e da justiça.
A partir dessa reflexão surgiria, ao longo da história, a tradição conhecida como doutrina da guerra justa, que procurava estabelecer limites morais ao uso da força. Essa tradição, posteriormente desenvolvida por pensadores medievais e juristas modernos, defendia que a guerra só poderia ser considerada legítima quando orientada por critérios rigorosos, como autoridade legítima, causa justa e proporcionalidade dos meios empregados.
Entretanto, a realidade contemporânea tem colocado novos desafios a essa tradição. O desenvolvimento tecnológico ampliou de maneira extraordinária a capacidade destrutiva das guerras modernas. Armas nucleares, sistemas de destruição em massa e tecnologias militares cada vez mais sofisticadas transformaram os conflitos armados em ameaças capazes de comprometer não apenas a vida de milhões de pessoas, mas o próprio equilíbrio da vida no planeta.
É nesse contexto que surgem reflexões críticas como as de Leonardo Boff. Para Boff, a magnitude destrutiva da guerra moderna torna cada vez mais difícil sustentar qualquer tentativa de justificá-la moralmente. Inspirando-se no famoso manifesto de 1955 assinado por cientistas e intelectuais como Bertrand Russell e Albert Einstein, ele recorda uma advertência que permanece atual: a guerra não pode ser humanizada, ela deve ser superada.
Tal reflexão não nasce de um idealismo ingênuo, mas de uma constatação histórica. Em um mundo capaz de destruir a si mesmo por meio de arsenais nucleares e tecnologias militares de alcance global, a guerra deixa de ser apenas um instrumento político para se tornar uma ameaça civilizatória.
Essa preocupação também aparece nas análises do frade dominicano Frei Betto, que frequentemente recorda uma antiga advertência bíblica: “a paz é fruto da justiça”. A frase, inspirada no profeta Isaías, recorda que a paz não pode ser construída apenas pela força ou pela imposição do poder militar. Ela exige estruturas sociais capazes de garantir dignidade, justiça e reconhecimento entre os povos.
Quando essas condições não existem, os conflitos tendem a se perpetuar. A história recente demonstra que vitórias militares raramente produzem estabilidade duradoura. Ao contrário, frequentemente geram novos ciclos de ressentimento, violência e instabilidade política. Diante desse cenário, a tradição cristã se vê novamente diante de uma tarefa antiga: refletir sobre os limites da violência e reafirmar a centralidade da paz como horizonte ético da vida social. Isso não significa ignorar a complexidade das relações internacionais ou negar a necessidade de mecanismos de defesa das sociedades. Significa, antes, recordar que a paz não pode ser reduzida a um simples equilíbrio de forças.
Em última análise, o debate contemporâneo sobre a guerra nos coloca diante de uma questão fundamental: que tipo de civilização desejamos construir? Se aceitarmos a guerra como um instrumento inevitável da política internacional, estaremos condenados a repetir indefinidamente os ciclos de violência que marcaram a história da humanidade. Se, por outro lado, formos capazes de construir instituições e relações internacionais orientadas pela justiça, talvez possamos transformar a paz em algo mais do que um breve intervalo entre guerras.
É nesse ponto que as reflexões de Agostinho, Frei Betto e Leonardo Boff convergem, ainda que partindo de contextos históricos distintos. Cada um, a seu modo, recorda que a paz não é simplesmente a ausência de guerra, mas a expressão de uma ordem social fundada na justiça.
Sem justiça, a paz permanece frágil.
Com ela, talvez possamos finalmente transformar em realidade aquilo que tantas gerações desejaram: uma humanidade capaz de superar a lógica da guerra e reconhecer na paz o seu verdadeiro destino histórico.

Frei Paulo Henrique Cintra, OSA
Comissão Provincial de Justiça, Paz e Integridade da Criação
Artigo escrito para a coluna Pé no Chão, do Jornal Inquietude On-line, edição de março de 2026.