Um bispo segundo o estilo agostiniano: homenagem a Dom Frei Márcio Antônio Vidal de Negreiros, OSA

No dia 24 de janeiro, véspera da Festa da Conversão de São Paulo Apóstolo, vivemos um momento de muita alegria e emoção, por ocasião da ordenação episcopal de Dom Frei Márcio Antônio Vidal de Negreiros, OSA, de nossa Província Agostiniana da Consolação. Dom Frei Márcio é o primeiro bispo agostiniano brasileiro da época contemporânea. Um presente de Deus à Igreja e à Ordem Agostiniana, por meio do Papa Leão XIV, um papa agostiniano.

No Brasil Colonial, tivemos alguns bispos agostinianos. Naquela época, o título oficial da Ordem era Ordem dos Frades Eremitas de Santo Agostinho (OESA), terminologia mudada a partir do Concílio Vaticano II: Ordem de Santo Agostinho (OSA). O primeiro deles foi Dom Frei Antônio de São José Moura Marinho, OESA (1704-1779), português, Bispo de São Luís do Maranhão (1756-1778), preconizado Arcebispo Primaz de Salvador (1778-1779), mas não tomou posse aí, porque faleceu. A seguir, temos Dom Frei Antônio Correia, OESA (1721-1802). Era português, sendo nomeado Arcebispo Primaz de Salvador da Bahia (1779-1802). Depois, veio Dom Frei Vicente do Espírito Santo, OESA (1721-1788). Português, Bispo de São Tomé (1779-1782), preconizado Bispo-Prelado de Goyaz (1782, não tomou posse). Dom Frei Francisco de Assunção Brito, OESA (1726-1808), nascido em Sabará/MG, foi o primeiro agostiniano brasileiro a ser elevado ao episcopado. Foi eleito Bispo de Olinda (1773), mas também não tomou posse, porque foi preconizado Arcebispo de Goa, na Índia (1773-1783).

Na época colonial, temos vários outros bispos da família agostiniana, da Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, como Dom Frei Tomás da Encarnação Costa Lima, OCRSA (1723-1784), brasileiro, foi Bispo de Olinda (1774-1784). E também Dom Frei João da Purificação Marques Perdigão, OCRSA (1779-1864), português, Bispo de Olinda (1831-1864).

A Ordem de Santo Agostinho só veio a ter outro membro no episcopado no Brasil com o espanhol Dom Frei Germán Vega Campón OESA (1878-1961), Administrador Apostólico (1931-1941) e Bispo Prelado de Jataí, Goiás (1941-1955). Frei Márcio é então, nesta etapa de implantação definitiva da Ordem no Brasil, o primeiro bispo brasileiro da Ordem de Santo Agostinho, o que nos enche de “santo orgulho”. Este é um motivo de grande júbilo para a Ordem e especialmente para a nossa Província; um reconhecimento da dedicação de Frei Márcio em sua consagração religiosa e ministério pastoral, sobretudo por anos a fio na promoção vocacional e formação, serviços vários no interior da Ordem e serviços apostólicos nas Igrejas onde estamos presentes.

Como podemos definir um “bispo segundo o estilo agostiniano”?
Em primeiro lugar, devemos buscar essa inspiração no próprio Santo Agostinho, Bispo de Hipona, no Norte da África, lugar em que foi bispo por 35 anos (395-430). Nele encontramos a figura do bom pastor, que dá a vida por suas ovelhas, as conhece e as chama pelo nome (cf. Jo 10, 11-18). Fiel a seu propósito inicial, desde sua conversão, manteve seu estilo de vida comunitária. Para ele era inconcebível viver sozinho. A presença de Irmãos na comunidade, leigos, diáconos e presbíteros, sempre foi uma maneira de viver o seguimento de Jesus Cristo, de acordo com a inspiração da primitiva comunidade de Jerusalém (cf. Atos dos Apóstolos 2, 42-47 e 4, 32-37). Dessa comunidade saíram pelo menos dez bispos agostinianos para o Norte da África que, como o fundador, difundiram seu ideal de vida comunitária, contemplativa e apostólica.

Uma conhecida frase de Santo Agostinho, nos informa acerca do modo como ele compreendia seu episcopado: “Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Para vós sou bispo, convosco sou cristão. Aquilo é um dever, isso uma graça. O primeiro é um perigo, o segundo é salvação” (Sermão 340,1). 

Em primeiro lugar, Santo Agostinho sabe-se um homem, “um entre tantos”. A condição humana é frágil, limitada e pecadora. Por isso sempre necessitada da graça. O bispo é, como “sumo sacerdote, tirado do meio dos homens e instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados. Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza” (Hb 5,1-2).

O bispo é, para Agostinho, fundamentalmente, um “dispensator Verbi et Sacramenti”, um “despenseiro da Palavra e do Sacramento”, um administrador no bom sentido do termo; não é dono. Tem consciência de que deve prestar conta de seu serviço a seu Senhor. Como membro do Povo de Deus, do qual tem a comum dignidade batismal, como filho amado e irmão, colocado à frente da comunidade de fé, como seu vigilante (“epíscopos”), deve exercer a tríplice função (“tria munera”) de sacerdote, profeta e rei – santificando, ensinando e governando, conforme o coração de pastor do Bom Pastor.

Deve zelar pela integridade da fé, como sucessor dos Apóstolos; trabalhar incansavelmente pela unidade da Igreja, que o gerou e o sustenta na fé; ser porta-voz dos fracos e defensor dos pobres, além de dialogar constantemente com a cultura de seu tempo. Na teologia agostiniana, destaca-se a íntima união entre Cristo e a Igreja, Cabeça e membros, que ele designa o Totus Christus (Cristo Total). Essa Igreja, única e universal (Católica), tem uma alma, que a vivifica e a conduz, o Espírito Santo. A Igreja, tem sua fonte na Trindade Santíssima, a ponto de Santo Agostinho exclamar: “Não pode ter Deus como Pai aquele que não tem a Igreja como mãe” (Sermão213, 11).

Em suma, Santo Agostinho compreendia o episcopado não como uma honra ou poder, mas como um serviço de amor (“ministerium caritatis”) e um encargo de responsabilidade diante de Deus (“dispensator Dei”). Sua visão, consolidada pela sua vivência pastoral, unia a autoridade hierárquica à humildade, definindo o bispo essencialmente como um “servidor”. 

Temos certeza de que Dom Frei Márcio será, como bispo, um fiel filho e discípulo de Santo Agostinho, imitando-o neste novo serviço que a Igreja lhe confia. Querido Irmão, estamos com você, como companheiros de caminho, unidos na oração, na fraternidade e na amizade. Uma vez Agostiniano, sempre Agostiniano! Conte conosco!!!

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA
Artigo publicado na coluna Reflexão, do Jornal Inquietude On-line, edição de janeiro de 2026.

Fotos: Ordenação Episcopal de Dom Frei Márcio A. Vidal de Negreiros, OSA.
Capa: Fernanda Panizza
Demais imagens: Luciana Magalhães