IIIº Encontro dos Padres da Caminhada

“Quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: ‘Por que tanta pobreza?’, chamam-me ‘comunista’” (Dom Hélder Câmara)

Nos dias 10 a 14 de novembro de 2025, realizou-se em Igarassu, Pernambuco, o IIIº Encontro dos Padres da Caminhada. Teve como temática o seguinte estudo: “Superar as teologias do domínio nos passos de Dom Hélder”. Estiveram presentes em torno de 50 padres que representavam o Brasil de norte a sul. A grande maioria dos padres que participou e os dois bispos (Dom Adriano Ciocca e Dom Gabriel Marchesi – trabalham na diocese de Floresta, PE) que estiveram presentes têm um compromisso direto com a causa dos mais marginalizados, ofendidos e excluídos da sociedade.

Para aprofundar a temática proposta, esteve com os Padres da Caminhada o assessor beneditino Marcelo Barros, entre outros. Marcelo Barros conheceu e trabalhou com Dom Hélder Câmara – o que favoreceu ao assessor comentar o que significou trabalhar com Dom Hélder e os desafios que ele enfrentava à frente como bispo, sobretudo no momento em que o país vivia o regime ditatorial. Ficou muito claro os posicionamentos corajosos e proféticos que Dom Hélder testemunhava diante de algumas questões eclesiais e sociais. O monge beneditino lembra uma das últimas frases de Dom Hélder, que ele ouviu, que foi: “Não deixe cair a profecia”. Entre as palavras de Dom Hélder, veja esta:

Olhei o mais que pude
Os rostos dos pobres
gastos pela fome
esmagados pelas humilhações
e neles descobri teu rosto,
Cristo Ressuscitado. (…)

Fazei, Senhor, o que não soubemos e o que não sabemos fazer. Como é difícil ultrapassar a barreira da ajuda, dos donativos, da assistência e atingir a área da justiça! Os privilegiados se irritam, julgam-se injustiçados, descobrem subversão e comunismo nos gestos mais democráticos, mais humanos e cristãos [1].

Enfim, no Encontro, os Padres da Caminhada beberam e aprofundaram a respeito da profecia de Dom Hélder. Como também visitaram a Igreja da Fronteira, em Recife, onde Dom Hélder residiu – como opção não quis viver no palácio episcopal – na simplicidade e pobreza; e, assim, puderam conhecer os vários cômodos em que vivia Dom Hélder. Também na Catedral da Sé, em Olinda, conheceram o túmulo de Dom Hélder.

Além das exposições e das visitas realizadas nos espaços onde Dom Hélder atuou, foram de muita riqueza as trocas de experiências entre os padres e bispos. Há uma mística e uma prática pastoral muito profunda, verdadeira na trilha da profecia e de uma Igreja contextualizada, vale dizer, inculturada no mundo dos pobres e sofredores, nas muitas experiências compartilhadas pelos participantes do IIIº Encontro.

Depois de participar de uma experiência como a que aconteceu em Igarassu, a gente sai revigorado para seguir assumindo a experiência do Seguimento de Jesus onde estivermos. Ao mesmo tempo, sentir-se apoiado e dando sentido a um compromisso de amor aos últimos, aos pequenos e aos invisibilizados – experiência muito esquecida ou abandonada por um setor da Igreja na atualidade.

Frei Luiz Augusto de Mattos, OSA
Artigo para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, de dezembro de 2025.

————————

(1) Hélder CÂMARA, Carta circular 102 (22/23.8.1970)

Foto: Freepik