A maior dificuldade que enfrentamos atualmente é mantermos a unidade entre os seres humanos. Seguindo os ensinamentos do Papa Leão, inspirados pela sabedoria de Santo Agostinho de Hipona, compreendemos que o caminho que nos resta como igreja é a sinodalidade. Dessa forma, podemos refletir coletivamente sobre novos caminhos que nos ajudem a viver a espiritualidade de maneira comunitária, respeitando a diversidade de dons presentes na igreja e valorizando as diferenças humanas, pois em Cristo Jesus somos um só. Como nos ensina Santo Agostinho: “Tua alma já não te pertence por completo, pertence também a teus irmãos; porém, as almas deles também te pertencem. Tua alma e as almas do teu irmão são uma só: a alma de Cristo.” (Carta 243, 4).
Vivemos em um tempo em que os vínculos sociais estão cada vez mais ameaçados. Sabemos que o desejo de Cristo é a unidade na diversidade, e a sinodalidade pode nos auxiliar na construção de um espírito crítico, tanto dentro quanto fora da igreja. Esse espírito nos permite reconhecer não apenas o que nos une ou nos separa, mas também a beleza daquilo que é diferente de nós. Cada diferença carrega a sua relevância e a importância no contexto da história da humanidade e, ao compreendê-las, nos aproximamos do verdadeiro sentido da comunhão.
Em Cristo, somos chamados não apenas à conversão, mas também a viver como Ele viveu. Uma das Suas posturas mais marcantes foi a aceitação da diversidade e da diferença como parte essencial da existência humana. Essa abertura e o acolhimento o levaram a ser condenado, pois Ele se fazia amigo daqueles que estavam à margem da sociedade. Seguindo Seu exemplo, também somos chamados a viver essa experiência da diferença em profundidade. Não com o intuito de transformar quem está ao nosso redor, mas sim de valorizar aquilo que é radicalmente distinto de nós, reconhecendo que, na diversidade, encontramos formas de proteger e promover a vida humana em sua totalidade. Como nos recorda Santo Agostinho: “Estamos a caminho da unidade como ponto de partida para a diversidade. O amor deve reunir-nos para alcançar a unidade e não cair na dispersão da pluralidade.” (Sermão 284, 4).
A sinodalidade, como um sinal de comunhão, não deve buscar a uniformidade, mas sim acolher a riqueza de um mundo que se apresenta belo justamente por sua diversidade. Somente ao aceitar essa complexidade poderemos sonhar com uma sociedade sem guerras, onde os grupos não busquem afirmar-se por meio do desaparecimento daqueles que diferem de si. Um olhar mais misericordioso, capaz de compreender as necessidades do outro e se colocar em seu lugar é o primeiro passo para uma igreja mais acolhedora e uma sociedade mais fraterna. Santo Agostinho nos ensina: “A verdadeira unidade entre irmãos se cria, se reforça e se protege na comunhão com o Amor. E este amor é o próprio Deus.” (Comentário ao Evangelho de São João 32, 7).
Que esse amor divino guie a igreja no caminho da sinodalidade. Neste ano jubilar, devemos nos organizar para sermos um sinal de unidade em meio a um mundo fragmentado pelas diferenças. Talvez essa seja uma boa contribuição da filosofia agostiniana para a construção de um mundo mais diverso e plural. Afinal, como nos lembra Santo Agostinho: “A Igreja caminha peregrinando entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus.” (A Cidade de Deus, 18, 51, 2). Como cristãos, sejamos essa consolação necessária para seguir caminhando – sempre, e em sinodalidade.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Artigo publicado na coluna Fala Agostinho, do Jornal Inquietude On-line, edição de junho de 2025.
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