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“TEMPOS DE ESPERANÇAR...” Mística e profecia em tempos de incerteza

Todo o contexto vivenciado pela sociedade mundial nos leva a acreditar que os tempos são difíceis, e que não vamos encontrar soluções para todos os males que nos assolam. Muito se fala de que virão novos tempos, que precisamos nos reinventar, ter uma nova maneira de ver a realidade... Mas isso realmente irá acontecer?

É um grande risco nos prendermos a expressões padronizadas que, diante dos diversos problemas da atual conjuntura, nos condiciona a simplesmente encara-la como apenas mais um momento vivenciado pela humanidade. Acredito que aqui está um grande desafio a nós, cristãos: propagar a esperança, vislumbrando o novo a partir de nossa mudança concreta.

Dentro deste panorama Frei Carlos Mesters, religioso carmelita e missionário propagador da leitura popular da Bíblia, tem defendido que hoje “urge a necessidade de entre nós, povo de Deus, o aparecimento de profetas do nosso tempo”. Os profetas são, seja na Bíblia ou ao curso da história da Salvação, os que acolheram a missão de falar da Palavra do Senhor por meio de um programa de esperança: o anúncio, a denúncia e a consolação.

O profeta Amós nos auxilia a compreender como podemos utilizar da mística e da profecia para a propagação desse programa esperança em tempos de crise e desilusão. Amós viveu numa época em que os poderosos adquiriam riquezas para sustentar suas vidas luxuosas em seus palácios, aumentavam seus bens para satisfazer desejos extravagantes, utilizando-se, para isso, de impostos abusivos, empréstimos com altos juros e fraudes, que iam tornando o povo cada vez mais endividado, na condição de trabalhar, não para viver, mas para pagar as dívidas, mesmo às custas de suas moradias. Sendo o profeta que foi, questionou a injustiça social, a opressão e a indiferença que o povo sofria por parte desses poderosos.

Mas esta realidade é uma história recorrente, é algo que está presente ainda em nossos dias atuais. Desta maneira, Amós continua sendo um profeta para os tempos atuais e o seu testemunho profético continua a dar voz a essas questões que são atemporais e estão presentes em todos os lugares.

Uma dimensão bem saliente em Amós é o fato de ter sido um camponês, alguém que tem entendimento sobre o dia a dia de quem precisa ter como sobreviver. Não era de escola profética, não tinha influência junto dos poderosos, mas se posicionava como alguém do povo. Pensando neste contexto, e trazendo-o para nossa atualidade, podemos dizer que existem muitos profetas Amós espalhados pelo mundo. Pessoas que, assim como este profeta, colocam sua voz para ser ouvida, lutando contra poderes políticos e religiosos, para defender seu povo que sofre as injustiças sociais presentes em sua época.

Assim como Amós, somos motivados a anunciar através da nossa fé o programa de esperança que o Senhor reservou a sua criação. O mesmo programa que um dia o próprio Jesus realizou a leitura na sinagoga, como nos relata o evangelista Lucas nos versículos 19 a 20 do capítulo quarto: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos
e proclamar o ano da graça do Senhor
”.

Aí está a centralidade do programa de esperança: mesmo que os problemas são atemporais ou se convertem em meros acontecimentos da história, nossa missão profética está enraizada na propagação da esperança cristã, agindo para a promoção da vida de todos conforme a vontade de Deus.

Em suma, somente através de uma vida que agregue mística e profecia, não por mérito nosso, mas por moção do Senhor através do seu Espírito, poderemos realmente construir uma nova civilização. Somente com a ação do Espírito, que renova a face da Terra, seremos capazes de assim como Amós, Oséias, Jeremias e entre outros profetas, a anunciar a esperança. Com exemplos de profetas de hoje como Irmã Dulce, Dom Oscar Romero, Dom Paulo Evaristo Arns, Padre Júlio Lancelotti devemos estar unidos na caridade para que assim, parafraseando Dom Serafim Fernandes, a esperança possa nascer e florecer.

 

Frei Caio Filipe de Lima Pereira, OSA

10 set
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