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Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma

Com efeito, a experiência da misericórdia só é possível
«face a face» com o Senhor crucificado e ressuscitado,
que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim.

(Gl 2, 20)

Queridos irmãos e irmãs,

O Senhor concede-nos, também neste ano, um tempo propício para nos prepararmos para celebrar, de coração renovado, o grande Mistério da morte e ressurreição de Jesus, cerne da vida cristã pessoal e comunitária.

Com a mente e o coração, devemos voltar continuamente a este Mistério. Com efeito, o mesmo não cessa de crescer em nós na medida em que nos deixarmos envolver pelo seu dinamismo espiritual e aderirmos a ele com uma resposta livre e generosa.

1. O Mistério pascal, fundamento da conversão

A alegria do cristão brota da escuta e recepção da Boa Nova da morte e ressurreição de Jesus: o kerygma. Este compendia o Mistério dum amor «tão real, tão verdadeiro, tão concreto, que nos proporciona uma relação cheia de diálogo sincero e fecundo» (Francisco, Exort. ap. Christus vivit, 117).

Quem crê neste anúncio rejeita a mentira de que a nossa vida teria origem em nós mesmos, quando na realidade nasce do amor de Deus Pai, da sua vontade de dar vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Se, pelo contrário, se presta ouvidos à voz persuasora do «pai da mentira» (Jo 8, 44), corre-se o risco de precipitar no abismo do absurdo, experimentando o inferno já aqui na terra, como infelizmente dão testemunho muitos acontecimentos dramáticos da experiência humana pessoal e coletiva.

Por isso, nesta Quaresma de 2020, quero estender a todos os cristãos o mesmo que escrevi aos jovens na Exortação apostólica Christus vivit: «Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia que te liberta de toda a culpa.

Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo» (n. 123).

A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do Espírito Santo é sempre atual e permite-nos contemplar e tocar com fé a carne de Cristo em tantas pessoas que sofrem.

2. Urgência da conversão

É salutar uma contemplação mais profunda do Mistério pascal, em virtude do qual nos foi concedida a misericórdia de Deus. Com efeito, a experiência da misericórdia só é possível «face a face» com o Senhor crucificado e ressuscitado, «que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gl 2, 20).

Um diálogo coração a coração, de amigo a amigo. Por isso mesmo, é tão importante a oração no tempo quaresmal. Antes de ser um dever, esta expressa a necessidade de corresponder ao amor de Deus, que sempre nos precede e sustenta.

De fato, o cristão reza ciente da sua indignidade de ser amado. A oração poderá assumir formas diferentes, mas o que conta verdadeiramente aos olhos de Deus é que ela escave dentro de nós, chegando a romper a dureza do nosso coração, para o converter cada vez mais a Ele e à sua vontade.

Por isso, neste tempo favorável, deixemo-nos conduzir como Israel ao deserto (cf. Os 2, 16), para podermos finalmente ouvir a voz do nosso Esposo, deixando-a ressoar em nós com maior profundidade e disponibilidade.

Quanto mais nos deixarmos envolver pela sua Palavra, tanto mais conseguiremos experimentar a sua misericórdia gratuita por nós. Portanto não deixemos passar em vão este tempo de graça, na presunçosa ilusão de sermos nós o dono dos tempos e modos da nossa conversão a Ele.

3. A vontade apaixonada que Deus tem de dialogar com os seus filhos

O fato de o Senhor nos proporcionar uma vez mais um tempo favorável para a nossa conversão, não devemos jamais dá-lo como garantido.

Esta nova oportunidade deveria suscitar em nós um sentido de gratidão e sacudir-nos do nosso torpor. Não obstante a presença do mal, por vezes até dramática, tanto na nossa existência como na vida da Igreja e do mundo, este período que nos é oferecido para uma mudança de rumo manifesta a vontade tenaz de Deus de não interromper o diálogo de salvação conosco.

Em Jesus crucificado, que Deus «fez pecado por nós» (2 Cor 5, 21), esta vontade chegou ao ponto de fazer recair sobre o seu Filho todos os nossos pecados, como se houvesse – segundo o Papa Bento XVI – um «virar-se de Deus contra Si próprio» (Enc. Deus caritas est, 12). De fato, Deus ama também os seus inimigos (cf. Mt 5, 43-48).

O diálogo que Deus quer estabelecer com cada homem, por meio do Mistério pascal do seu Filho, não é como o diálogo atribuído aos habitantes de Atenas, que «não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades» (At 17, 21).

Este tipo de conversa, ditado por uma curiosidade vazia e superficial, carateriza a mundanidade de todos os tempos e, hoje em dia, pode insinuar-se também num uso pervertido dos meios de comunicação.

4. Uma riqueza que deve ser partilhada, e não acumulada só para si mesmo

Colocar o Mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria.

Também hoje é importante chamar os homens e mulheres de boa vontade à partilha dos seus bens com os mais necessitados através da esmola, como forma de participação pessoal na edificação dum mundo mais justo.

A partilha, na caridade, torna o homem mais humano; com a acumulação, corre o risco de embrutecer, fechado no seu egoísmo. Podemos e devemos ir mais além, considerando as dimensões estruturais da economia.

Por este motivo, na Quaresma de 2020 – mais concretamente, de 26 a 28 de março –, convoquei para Assis jovens economistas, empreendedores e transformativos, com o objetivo de contribuir para delinear uma economia mais justa e inclusiva do que a atual.

Como várias vezes se referiu no magistério da Igreja, a política é uma forma eminente de caridade (cf. Pio XI, Discurso à FUCI, 18/XII/1927). E sê-lo-á igualmente ocupar-se da economia com o mesmo espírito evangélico, que é o espírito das Bem-aventuranças.

Invoco a intercessão de Maria Santíssima sobre a próxima Quaresma, para que acolhamos o apelo a deixar-nos reconciliar com Deus, fixemos o olhar do coração no Mistério pascal e nos convertamos a um diálogo aberto e sincero com Deus. Assim, poderemos tornar-nos aquilo que Cristo diz dos seus discípulos: sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14).

Roma, em São João de Latrão, 7 de outubro de 2019
Memória de Nossa Senhora do Rosário.

Papa Francisco

26 fev
7 fev
Cuidar da Casa Comum é cuidar de si

A consciência de um mundo mais integrado habita o imaginário da humanidade neste começo do século XXI. As relações estabelecidas entre os povos e o meio ambiente se transformaram em elementos fundamentais dos noticiários cotidianos, das propagandas oficiais dos governos e das nossas conversas informais. Estamos descobrindo que cuidar da nossa casa comum – que chamamos meio ambiente – faz parte do cuidado de si. E, que se quisermos aproveitar o pretenso progresso que conquistamos ao longo do século passado devemos rever nossa forma de ser e estar no planeta. A sustentabilidade e o desenvolvimento parecem ter se encontrado e fazem um esforço para conviverem no meio de nós.

Santo Agostinho, já no século IV da era cristã, trazia em suas reflexões pistas importantes para construirmos uma relação saudável entre o homem e a criação, como compreensão da realidade histórica do homem como parte da criação divina. “Possuamos as coisas terrenas sem deixar-nos possuir por elas. Que não se deslumbre sua multiplicação nem nos afunde sua carência. Vivamos bem com elas, sem fazer-nos nem seus servidores nem escravizá-las.” Carta 15, 2 de Santo Agostinho. Para este filósofo, a relação harmônica entre o homem e a criação de Deus se dá através de uma convivência que se (re) constrói a partir de duas ideias básicas: a ordem e a paz.

Para Santo Agostinho, a ordem é “a correta disposição das coisas semelhantes e diferentes, em virtude da qual cada uma delas ocupa o lugar que lhe é próprio.” Santo Agostinho in Cidade de Deus 19, 13, 1. A partir desta, o homem se locomove e se organiza frente a sua realidade terrena e transitória, respeitando o local e a finalidade de todas as coisas criadas por Deus. Desta forma, os homens e mulheres constroem na terra, não só o caminho que leva a pátria celeste, mas ela mesma aqui na cidade dos homens. As relações harmoniosas entre a natureza criada por Deus e a humanidade se expressa no uso consciente de seus recursos e a preservação de sua existência, fazendo-se, assim, fundamental para o cumprimento da vontade de Deus e garantindo a continuação da espécie humana peregrina neste mundo terreno. O estabelecimento desta ordem, produzida nas relações de cuidados entre os homens e o meio ambiente, resulta na paz que se reflete no conjunto da criação divina. “A Paz do corpo é a boa coordenação de seus membros. A paz da casa é o ordenando entendimento entre os que habitam nela. A paz da cidade terrena é o consenso ordenado entre seus concidadãos. A paz da cidade celeste é a ordenadíssima e agradabilíssima convivência entre seus cidadãos para gozar de Deus. E a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem.” Santo Agostinho in Cidade de Deus 19, 13. Neste contexto reflexivo, a paz se apresenta como resultado do conjunto de consensos estabelecidos entre os homens para que todo o ecossistema partilhado por todos na cidade dos homens seja vivido em sua ordem e funcionalidade prescrita pela vontade divina. O esforço humano em cumprir a vontade de Deus se revela no estabelecimento saudável e fraterno das relações entre as criaturas criadas por Deus nos contextos das sociedades ao longo da história. O cuidado com a casa comum se concretiza quando a humanidade entende o seu chamado a ser construtora desta paz ordenadora da vida, fazendo com que ela tenha um sentido maior que os efêmeros fins da exploração promovidos pelos prazeres desordenados dos seres humanos.

“Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz.” Sermão 11,12 de Santo Agostinho. A promoção da paz, através da reivindicação da justiça e do direito de um ecossistema concebido como sujeito ativo das relações com a humanidade, deve ser a nossa reflexão neste novo século. Cuidar de si é cuidar do ecossistema que fazemos parte, ou seja, da casa comum a todos os povos, de diferentes línguas e credos. Promover a ordem da criação de Deus é promover a paz que nos garante a vida em abundância tanto da humanidade quando do planeta. O cuidado pacífico deste ecossistema é um dos principais caminhos para que possamos entrar em contato com o nosso interior, os homens, as mulheres e Deus, ou seja, toda a criação.

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27 jan
Cristo é a nossa consciência histórica

Toda humanidade é chamada a contribuir para a construção da história. Os nossos gestos, por menores que sejam, são importantes para o desenvolvimento de nossa história pessoal e comunitária. A nossa postura frente à realidade presente passa a ser uma oportunidade para desenvolvermos um mundo mais justo e fraterno, onde os valores essenciais para o crescimento dos seres humanos podem ser vivenciados de forma saudável nos relacionamentos sociais. O questionamento que nos resta é: temos a consciência de que fazemos parte deste projeto maior de construção da história da humanidade? Como a nossa consciência pode nos ajudar a vivenciá-lo de forma mais efetiva?

Para Santo Agostinho, a consciência da realidade humana é algo fundamental para que nos aproximemos de Deus e possamos construir o nosso presente segundo o projeto de Deus para a humanidade. “Escolhe aquelas classes de bens que deve ter o teu coração, enche-o dessas riquezas espirituais que Deus vê, ainda que não as vejam os homens.” (Santo Agostinho in Comentário aos Salmos 53,8). No coração repousam os bens necessários para que o homem, constituído das riquezas espirituais, possa realizar o seu projeto de construção de uma convivência mais harmônica entre os seus semelhantes e a criação de Deus. É dentro de si mesmo que o homem encontra a tranquilidade necessária para o desenvolvimento de suas habilidades pessoais que o colocará em contato com as necessidades históricas da humanidade. É no reconhecimento da presença de Deus no seu mais íntimo que o homem tem a aprovação para enfrentar os desafios e as dificuldades surgidas em seu caminho, confiante de que não se encontra sozinho na construção de uma história mais adequada à vontade e ao projeto de Deus para si e para os demais. “Que seja suficiente a aprovação daquele que te vê interiormente. Como interno é seu amor por ti, assim também interior seja teu amor por aquele que no interior faz surgir a verdadeira beleza.” (Santo Agostinho in Sermão 36,8)

Por isto, a consciência de que somos importantes na construção de uma realidade melhor para si e para os irmãos é muito importante. A consciência do que acontece externamente aos seres deve encontrar a sua resposta no interior dos homens. Assim eles se sentirão motivados a participar ativamente da vida em todos os seus aspectos, através de gestos que resplandeçam ao ‘Cristo interior’ que habita dentro de cada um de nós. “Entra em teu interior, purifica-o, levanta os teus olhos a Cristo que vive dentro de ti, assim ele te escutará.” (Santo Agostinho in Comentário aos Salmos 93,25). A presença de Cristo em nosso interior nos proporcionará a necessária inquietude para sermos solidários aos nossos irmãos, a indispensável tranquilidade para organizarmos as nossas ações neste mundo e a imperativa consciência de que somos responsáveis em construir uma história a partir dos valores cristãos fundamentais de partilha, de justiça e de fraternidade.

“Cristo vê a tua consciência. Ali é onde Cristo ama, onde Cristo fala, onde Cristo castiga e onde Cristo coroa.” (Santo Agostinho in Comentário aos Salmos 44,29). Voltar ao nosso interior é se comprometer com a construção do mundo exterior. Ter consciência da responsabilidade frente às vicissitudes do mundo é se empenhar em uma vivência histórica mais profundamente enraizada no Cristo presente em cada um de nós. É a oportunidade de realizarmos a sua obra no meio da humanidade e de construirmos uma história diferente, onde os valores humano-cristãos sejam a da nossa consciência em uma interação social dinâmica e criativa. Cristo é a nossa consciência histórica. E por habitar em nós, nos chama à responsabilidade pela criação de uma história, onde a solidariedade, a partilha equitativa e os vínculos fraternos sejam o sinal de que Cristo permanece vivo na história e na consciência de todos os homens e mulheres de boa vontade.

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16 jan
A NOVA PROVÍNCIA - Tributo aos Pioneiros

                A Ordem de Santo Agostinho (OSA) é um instituto religioso da Igreja Católica, de caráter pontifício e internacional. É reconhecido pela Santa Sé e, por isso, pode abrir comunidades e obras e realizar atividades no mundo todo. De fato, a Ordem Agostiniana está presente nos cinco continentes, em mais de cinquenta países.

                A Ordem, como em geral as outras ordens e congregações religiosas, organiza-se em unidades maiores, denominadas províncias; e em unidades menores, chamadas vicariatos e delegações. No Brasil, existem duas províncias agostinianas da OSA: a Província Agostiniana do Brasil, cuja padroeira é Santa Mônica, e a Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil, cuja padroeira é, como o próprio nome indica, Nossa Senhora da Consolação e Correia.

                A Província da Consolação tem sua origem na Província Agostiniana do Sagrado Coração de Jesus de Madri, também conhecida por Província Matritense, por ter boa parte de suas casas e obras na região de Madri, na Espanha. Os primeiros religiosos agostinianos da Província Matritense, que vieram para o Brasil em 1929, saíram do Mosteiro de El Escorial. Por isso são também conhecidos como Agostinianos do Escorial.

                Os primeiros a chegarem foram Frei Antonio Fernández e Frei Manuel Formigo Giráldez, em setembro de 1929. Em outubro chegou Frei Ricardo Rodríguez e, em novembro, Frei Wenceslao Martín. Em 1931, a Província Matritense enviou para o Brasil um numeroso grupo de religiosos, alguns dos quais por terminar os estudos: Frei Andrés Pérez de Toledo, que foi o primeiro vicário da então criada Vicaria Matritense do Brasil. Naquele ano, pouco a pouco vieram os Freis Saturnino Casas, Benito Prieto, Agustín Fincias, Marcelino García, Vicente Rabanal, Francisco Gil Sobejano, Luciano Tobar Pardo, Celestino Elvira, Mariano Luis, Germán Herrero, Juan Francisco Herrero e Victorino Turienzo.

                Em 1932, foi a vez dos Freis Pedro Martínez, Manuel Martínez, Donato Rodríguez, Marceliano García e Aniano Rodríguez. Em 1933, desembarcavam no porto do Rio de Janeiro os Freis Marcelino Barrio Inyesto, Hilario Martínez Rojo, Cipriano Álvarez, Amador Franco e Carlos Vicuña Elizondo, o grande dinamizador das obras agostinianas no período inicial. E, por fim, completando o grupo dos que podemos considerar os “Pioneiros dos Agostinianos do Escorial no Brasil”, chegaram Frei Evaristo Arámbruru e Frei Agustín Cermeño.

                Figuras que poucos de nossos maiores, de idade avançada, conheceram. Para a maioria dos atuais frades, alguns mais experientes, outros mais jovens, esses veneráveis pioneiros são nomes apenas ouvidos, ou talvez só conhecidos nas páginas das crônicas. No entanto, como num álbum de família, queremos aqui resgatar seus nomes, pois, no Livro da Vida, o Senhor da História os conhece. Damos graças a Deus pela vida, entrega e trabalho generoso destes Agostinianos da primeira hora, cujo fruto foi o Vicariato da Consolação (1988), que agora inicia uma nova fase de sua história, como Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil.

 

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA
Prior Provincial

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8 jan
Mensagem do Papa: Jesus nos salva do gelo da indiferença e da desumanidade

Com os fiéis e peregrinos, o Papa Francisco deu prosseguimento ao seu ciclo de catequeses sobre os Atos dos Apóstolos e na quarta-feira (08/01) comentou a experiência do naufrágio vivida pelo Apóstolo Paulo e sua chegada a Malta.

Na parte final do livro dos Atos, explicou o Pontífice, o Evangelho continua a sua corrida não só por terra, mas também por mar; agora num barco, que leva Paulo, prisioneiro, de Cesareia para Roma.

As condições da travessia são desfavoráveis e a viagem torna-se perigosa, tendo de atracar em Creta. Paulo aconselha a esperarem que a situação melhore, mas o centurião não lhe dá ouvidos e saem para o mar alto.

Desencadeou-se, porém, um vento fortíssimo, que faz a tripulação perder o controle do barco e este fica à deriva. Quando já o desespero se apoderara de todos, Paulo intervém; mesmo na provação e apesar de não lhe terem dado ouvidos, não cessa de ser guardião da vida dos outros e animador da sua esperança.

Homem de fé, sabe que Deus o quer em Roma, como aliás lhe confirma um Anjo: "É necessário que compareças diante de César e, por isso, Deus concedeu-te a vida de todos quantos navegam contigo".

Na verdade, aquela viagem por mar terminaria com o barco encalhado e completamente desfeito, mas os náufragos alcançariam, a nado, a ilha de Malta, onde beneficiaram da hospitalidade dos seus habitantes. “Os malteses são hospitaleiros desde aquele tempo”, elogiou o Papa.


Naufrágio, oportunidade providencial

“O naufrágio, de uma situação de desgraça, se transforma em oportunidade providencial: é uma imersão nas águas que evoca a experiência batismal de morte e ressurreição e que faz experimentar o cuidado de Deus e a sua poderosa salvação.”

Em Malta, chove e faz frio e também aqui Paulo, como verdadeiro discípulo de Cristo, se coloca a serviço para alimentar o fogo da fogueira e é mordido por uma cobra, sem que nada aconteça. E isso faz com que as pessoas o confundam com um malfeitor ou uma divindade. A lenda, acrescentou Francisco, diz que desde então não existem cobras venenosas em Malta.

A estada na ilha se torna para Paulo a ocasião propícia para dar ‘carne’ à palavra que anuncia e exercitar, assim, um ministério de compaixão na cura dos doentes.

“Esta é uma lei do Evangelho”, disse o Papa: “quando um fiel experimenta a salvação, não a mantém para si, mas a coloca à disposição. Um cristão ‘provado’ pode certamente fazer-se mais próximo e tornar o seu coração aberto e sensível à solidariedade para com os outros.”


O amor a Deus é sempre fecundo

A lição que Paulo nos dá neste trecho do Evangelho é de viver as provações unindo-nos a Cristo, certos de que Deus pode atuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos, e toda a pessoa que se entrega a Deus por amor, seguramente será fecunda.

“O amor é sempre fecundo. O amor a Deus é sempre fecundo. Se você recebe os dons do Senhor, isso o levará a doar aos outros. Sempre vai além.” Francisco então concluiu:

“Peçamos hoje ao Senhor que nos ajude a viver todas as provas amparados pela energia da fé; a ser sensíveis aos muitos náufragos da história que desembarcam exaustos nas nossas costas, para que também nós saibamos acolhê-los com aquele amor fraterno que vem do encontro com Jesus. É isto que salva do gelo da indiferença e da desumanidade.”

Na Audiência, teve número de circo e aos fiéis de língua portuguesa, o Papa desejou feliz Ano Novo:

“Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha cordial saudação para vós todos, desejando a cada um que sempre resplandeça, nos vossos corações, famílias e comunidades, a luz do Salvador, que nos revela o rosto terno e misericordioso do Pai do Céu. Abracemos o Deus Menino, colocando-nos ao seu serviço: Ele é fonte de amor e serenidade. Ele vos abençoe com um Ano Novo sereno e feliz!”

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3 jan
Mensagem do Papa Francisco para o 28º Dia Mundial do Enfermo
“Lembremo-nos de que a vida é sacra e pertence a Deus, sendo por conseguinte inviolável e indisponível. A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte”, escreve o Papa.

«Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28)


Queridos irmãos e irmãs!

1.     Estas palavras ditas por Jesus – «vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28) – indicam o caminho misterioso da graça, que se revela aos simples e revigora os cansados e exaustos. Tais palavras exprimem a solidariedade do Filho do Homem, Jesus Cristo, com a humanidade aflita e sofredora. Há tantas pessoas que sofrem no corpo e no espírito! A todas, convida a ir ter com Ele – «vinde a Mim» –, prometendo-lhes alívio e recuperação. «Quando Jesus pronuncia estas palavras, tem diante dos seus olhos as pessoas que encontra todos os dias pelas estradas da Galileia: muita gente simples, pobres, doentes, pecadores, marginalizados pelo ditame da lei e pelo opressivo sistema social. Este povo sempre acorreu a Ele para ouvir a sua palavra, uma palavra que incutia esperança» (Angelus, 6 de julho de 2014).

No XXVIII Dia Mundial do Doente, Jesus dirige este convite aos doentes e oprimidos, aos pobres cientes de dependerem inteiramente de Deus para a cura de que necessitam sob o peso da provação que os atingiu. A quem vive na angústia devido à sua situação de fragilidade, sofrimento e fraqueza, Jesus Cristo não impõe leis, mas, na sua misericórdia, oferece-Se a Si mesmo, isto é, a sua pessoa que dá alívio. A humanidade ferida é contemplada por Jesus com olhos que veem e observam, porque penetram em profundidade: não correm indiferentes, mas param e acolhem o homem todo e todo o homem segundo a respetiva condição de saúde, sem descartar ninguém, convidando cada um a fazer experiência de ternura entrando na vida d’Ele.

2.     Porque tem Jesus Cristo estes sentimentos? Porque Ele próprio Se tornou frágil, experimentando o sofrimento humano e recebendo, por sua vez, alívio do Pai. Na verdade, só quem passa pessoalmente por esta experiência poderá ser de conforto para o outro. Várias são as formas graves de sofrimento: doenças incuráveis e crónicas, patologias psíquicas, aquelas que necessitam de reabilitação ou cuidados paliativos, as diferentes formas de deficiência, as doenças próprias da infância e da velhice, etc. Nestas circunstâncias, nota-se por vezes carência de humanidade, pelo que se revela necessário, para uma cura humana integral, personalizar o contacto com a pessoa doente acrescentando a solicitude ao tratamento. Na doença, a pessoa sente comprometidas não só a sua integridade física, mas também as várias dimensões da sua vida relacional, intelectiva, afetiva, espiritual; e por isso, além das terapias, espera amparo, solicitude, atenção, em suma, amor. Além disso, junto do doente, há uma família que sofre e pede, também ela, conforto e proximidade.

3.     Queridos irmãos e irmãs enfermos, a doença coloca-vos de modo particular entre os «cansados e oprimidos» que atraem o olhar e o coração de Jesus. Daqui vem a luz para os vossos momentos de escuridão, a esperança para o vosso desalento. Convida-vos a ir ter com Ele: «Vinde». Com efeito, n’Ele encontrareis força para ultrapassar as inquietações e interrogativos que vos surgem nesta «noite» do corpo e do espírito. É verdade que Cristo não nos deixou receitas, mas, com a sua paixão, morte e ressurreição, liberta-nos da opressão do mal.

Nesta condição, precisais certamente dum lugar para vos restabelecerdes. A Igreja quer ser, cada vez mais e melhor, a «estalagem» do Bom Samaritano que é Cristo (cf. Lc 10, 34), isto é, a casa onde podeis encontrar a sua graça, que se expressa na familiaridade, no acolhimento, no alívio. Nesta casa, podereis encontrar pessoas que, tendo sido curadas pela misericórdia de Deus na sua fragilidade, saberão ajudar-vos a levar a cruz, fazendo, das próprias feridas, frestas através das quais divisar o horizonte para além da doença e receber luz e ar para a vossa vida.

Nesta obra de restabelecimento dos irmãos enfermos, insere-se o serviço dos profissionais da saúde – médicos, enfermeiros, pessoal sanitário, administrativo e auxiliar, voluntários –, pondo em ação as respetivas competências e fazendo sentir a presença de Cristo, que proporciona consolação e cuida da pessoa doente tratando das suas feridas. Mas, também eles são homens e mulheres com as suas fragilidades e até com as suas doenças. Neles se cumpre de modo particular esta verdade: «Quando recebemos o alívio e a consolação de Cristo, por nossa vez somos chamados a tornar-nos alívio e consolação para os irmãos, com atitude mansa e humilde, à imitação do Mestre» (Angelus, 6 de julho de 2014).

4.     Queridos profissionais da saúde, qualquer intervenção diagnóstica, preventiva, terapêutica, de pesquisa, tratamento e reabilitação há de ter por objetivo a pessoa doente, onde o substantivo «pessoa» venha sempre antes do adjetivo «doente». Por isso, a vossa ação tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos de natureza eutanásica, de suicídio assistido ou supressão da vida, nem mesmo se for irreversível o estado da doença.

Quando vos defrontais com os limites e possível fracasso da própria ciência médica perante casos clínicos cada vez mais problemáticos e diagnósticos funestos, sois chamados a abrir-vos à dimensão transcendente, que vos pode oferecer o sentido pleno da vossa profissão. Lembremo-nos de que a vida é sacra e pertence a Deus, sendo por conseguinte inviolável e indisponível (cf. Instr. Donum vitae, 5; Enc. Evangelium vitae, 29-53). A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte: exigem-no simultaneamente tanto a razão como a fé em Deus, autor da vida. Em certos casos, a objeção de consciência deverá tornar-se a vossa opção necessária, para permanecerdes coerentes com este «sim» à vida e à pessoa. Em todo o caso, o vosso profissionalismo, animado pela caridade cristã, será o melhor serviço ao verdadeiro direito humano: o direito à vida. Quando não puderdes curar, podereis sempre cuidar com gestos e procedimentos que proporcionem amparo e alívio ao doente.

Infelizmente, nalguns contextos de guerra e conflitos violentos, são atacados o pessoal sanitário e as estruturas que se ocupam da receção e assistência dos doentes. Nalgumas áreas, o próprio poder político pretende manipular a seu favor a assistência médica, limitando a justa autonomia da profissão sanitária. Na realidade, atacar aqueles que se dedicam ao serviço dos membros sofredores do corpo social não beneficia a ninguém.

5.     Neste XXVIII Dia Mundial do Doente, penso em tantos irmãos e irmãs de todo o mundo sem possibilidades de acesso aos cuidados médicos, porque vivem na pobreza. Por isso, dirijo-me às instituições sanitárias e aos governos de todos os países do mundo, pedindo-lhes que não sobreponham o aspeto económico ao da justiça social. Faço votos de que, conciliando os princípios de solidariedade e subsidiariedade, se coopere para que todos tenham acesso a cuidados médicos adequados para salvaguardar e restabelecer a saúde. De coração agradeço aos voluntários que se colocam ao serviço dos doentes, procurando em não poucos casos suprir carências estruturais e refletindo, com gestos de ternura e proximidade, a imagem de Cristo Bom Samaritano.

À Virgem Maria, Saúde dos Enfermos, confio todas as pessoas que carregam o fardo da doença, juntamente com os seus familiares, bem como todos os profissionais da saúde. Com cordial afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e envio a Bênção Apostólica.

Vaticano, Memória do SS. Nome de Jesus, 3 de janeiro de 2020.

[Franciscus]

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29 dez
Sagrada Família - Convite para retomar a comunicação em família

A família é um tesouro precioso que precisa ser apoiado e tutelado, disse o Papa Francisco no domingo, 29 de dezembro, Festa da Sagrada Família, quando deu uma tarefa: retomar a comunicação em família: os pais, os pais com os filhos, com os avós, os irmãos entre eles.

No último Angelus do ano de 2019, Francisco propôs a Sagrada Família de Nazaré como modelo para nossas famílias. “O termo "sagrada" - começou explicando - insere essa família no âmbito de santidade que é dom de Deus mas, ao mesmo tempo, é uma adesão livre e responsável ao projeto de Deus. Assim foi para a família de Nazaré: foi totalmente disponível à vontade de Deus.”


Maria ouve a Palavra de Deus e a coloca em prática

Falando aos milhares de peregrinos e turistas presentes na Praça São Pedro em um domingo ensolarado, com a temperatura por volta dos 9º C, Francisco chamou a atenção para o fato de que “os três componentes da Família de Nazaré, ajudam-se um ao outro a descobrir e realizar o plano de Deus”, e explicou brevemente o papel desempenhado por cada um nesta missão divina, a começar por Maria:

“Como não ficar maravilhados, por exemplo, com a docilidade de Maria à ação do Espírito Santo, que pede a ela para se tornar mãe do Messias?” 

Maria, como toda jovem do seu tempo, estava para concretizar seu projeto de vida, isto é, casar-se com José. Mas quando percebe que Deus a chama para uma missão particular, não hesita em proclamar-se sua "serva”.

O Papa explica que Jesus exaltará a grandeza de Maria não tanto por seu papel de mãe, mas por sua obediência a Deus: "Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática, como Maria": “E quando não compreende bem os eventos que a envolvem, Maria medita no silêncio, reflete e adora a iniciativa divina. A sua presença aos pés da Cruz consagra essa total disponibilidade”.

José, homem do silêncio e da obediência

Quanto a José, ele “não fala, mas age obedecendo”, “é o homem do silêncio, o homem da obediência” - ressalta Francisco - sob a condução de Deus, representada pelo anjo: A página do Evangelho de hoje recorda três vezes essa obediência de José, relacionada à fuga para o Egito e ao retorno à terra de Israel. Sob a guia de Deus, representada pelo anjo, José distancia sua família das ameaças de Herodes, e a salva. A Sagrada Família solidariza assim com todas as famílias do mundo forçadas ao exílio, solidariza com todos aqueles que são forçados a abandonar a própria terra por causa da repressão, da violência, da guerra.

Jesus, a vontade do Pai

Por fim Jesus, a terceira pessoa da Sagrada Família. Jesus, em quem – explica o Papa - houve somente “sim”, o que é manifestado em tantos momentos de sua vida terrena, citando o episódio em que seus pais aflitos o acharam no templo pregando aos doutores da lei, sua oração de entrega ao Pai no Jardim das Oliveiras, todos eventos que são a perfeita realização das próprias palavras de Cristo que diz: “Não quiseste sacrifício nem oblação [...]. Então disse: "Eis que eu venho [...] fazer vossa vontade, Meu Deus".

Uma tarefa: retomar a comunicação em família

Assim, disse Francisco, “Maria, José e Jesus, a Família de Nazaré, representam uma resposta uníssona à vontade do Pai. Os três componentes dessa família singular se ajudam reciprocamente a descobrir e realizar o plano de Deus. Eles rezavam, trabalhavam, se comunicavam”. E então o Papa se pergunta: Tu, em tua família, sabes te comunicar, ou és como aqueles jovens na mesa, cada um com o telefone celular, [que] estão [trocando mensagens] em chats? Naquela mesa parece um silêncio, como se estivessem na Missa ... Mas não se comunicam. Devemos retomar a comunicação em família: os pais, os pais com os filhos, com os avós, mas comunicar-se, com os irmãos, entre eles... Esta é uma tarefa a ser feita hoje, precisamente no dia da Sagrada Família.

“Devemos retomar a comunicação em família: os pais, os pais com os filhos, com os avós, mas comunicar-se, com os irmãos, entre eles... Esta é uma tarefa a ser feita hoje, precisamente no dia da Sagrada Família”

Sagrada Família, modelo para as famílias

“Que a Sagrada Família possa ser modelo para nossas famílias, para que pais e filhos se apoiem mutuamente na adesão ao Evangelho, fundamento da santidade da família.”

Confiemos a Maria "Rainha da família" – disse o Papa ao concluir - todas as famílias do mundo, especialmente aquelas provadas pelo sofrimento, e invoquemos sobre elas a sua materna proteção.

Família, um tesouro a ser protegido

Ao saudar os peregrinos e turistas presentes na Praça São Pedro, o Papa dirigiu uma saudação às famílias: “Hoje dirijo uma saudação especial às famílias aqui presentes e àquelas que participam de casa através da televisão e do rádio. A família é um tesouro precioso: é preciso sempre apoiá-la, protegê-la: em frente!”

Acabar o ano com paz no coração

Antes de despedir-se com o tradicional bom domingo, bom almoço e não se esqueçam de rezar por mim, o Papa fez votos de que todos terminem o ano em paz: Saúdo a todos, e a todos desejo um bom domingo e um final de ano sereno. Terminemos o ano em paz, paz de coração: esses são meus votos a vocês. E em família, se comunicando. Agradeço novamente a vocês pelas felicitações [de Natal] e pelas orações. E por favor continue rezando por mim. Bom almoço e até logo!

Papa Francisco

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12 dez
Vivendo sob a graça divina

 

Aproximamo-nos do fim de mais um ciclo de nossa vida: o fim do ano. Como todos os outros anos, nos colocamos diante de Deus para agradecer e reprogramar as nossas vivências para uma nova etapa de vida. O advento nos enche de paz e de esperança para resgatar o melhor de cada um de nós a partir da graça divina de Deus e do esforço pessoal que nutrimos frente à sua palavra de vida.

Santo Agostinho nos incentivava a este exercício cristão de encontro com Deus e com os irmãos: “Eleve seu coração para que ele não apodreça na terra. Este é conselho d’Aquele que não deseja destruir, mas salvar. Você não se perderá enquanto ele estiver dirigido ao céu sem tirá-lo da terra.” Sermão 60, 7. Assim sendo, ter os nossos sentidos voltados a este Deus que busca realizar a sua graça através de cada um de nós deve ser o motivo de nossa reflexão de advento. Uma reflexão que não pode tirar o foco da “terra”, ou seja, da nossa humanidade e das necessidades de nossos irmãos.

A nossa fraternidade é a expressão maior deste desejo de Deus em encarnar-se no meio de nós. Ele se faz irmão de todos, para que tenhamos os mesmos sentimentos que Ele, e deste modo, possamos construir uma fraternidade que ultrapas se as fes tas e comemorações de fim de ano e se instalando no coração das relações humanas.

“Dediquemos às causas de Deus um amor íntegro e ao próximo um amor vigoroso. Façamos pelos outros o que pudermos. Ofereçamos aos necessitados o que é abundante para nós.” Sermão 41, 9. Este é o convite da espiritualidade de Santo Agostinho: nos dedicar aos nossos irmãos como a expressão da nossa dedicação a Deus. O homem, em sua limitação, reconhece que existem algumas coisas que dependem da graça divina, porém todo o restante que pudermos fazer por nós mesmos, e pelos demais, devemos realizá-lo. Não como obrigação, lamúrias e sacrifícios, mas como filhos livres de Deus que, sob a graça divina, assume a missão de discípulos e missionários de um amor perene que atravessa todo os dias do ano.

Este exercício de fraternidade deve ser realizado nas pequenas coisas da vida, como Agostinho recorda aos seus contemporâneos: “Até mesmo o pobre tem algo que pode dividir com os outros. Que empreste os pés aos aleijados, que outro se torne olhos do cego, um outro visite um doente ou enterre um morto. Essas são coisas que todos podem fazer. Amenize a carga do outro e estará seguindo a Lei de Cristo.” Sermão 47,9 O exercício da caridade não passa somente pelos bens materiais, mas também pelos bens espirituais que vamos construindo ao longo da vida. Esta partilha de bens se constitui no desejo de estar junto a Deus, e que obrigatoriamente, implica também em estar respondendo aos apelas de toda humanidade.

Novamente um ciclo de vida se encerra com o fim deste ano. As festas, celebrações e presentes apenas são reflexos de uma fraternidade que devemos buscar ao longo de um novo ano que se inicia. Lembrar-se que a convivência com os irmãos reflete a nossa inquietude em estar próximos de Deus, e de sua vontade, não pode ser ignorada por nós. Como Agostinho de Hipona no Sermão 184, 3, nos lembra: “Suas graças são perfeitas; e Ele não hesitou em confiá-las a cada um de nós.” E por que não viver sob a graça de Deus, junto aos nossos irmãos, ao longo de todo ano que se aproxima?

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA

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5 dez
Encarnar-se com Deus

O final do ano se aproxima e a vida novamente se renova como oportunidade de transformação para todos nós. Em um ano de muitas adversidades, acreditamos na verdadeira força humanizadora de Deus na figura de um menino deitado na manjedoura. E tudo isso resultou de uma decisão de uma mulher. Uma mulher que foi capaz de olhar para a sua vida e dizer sim a um projeto totalmente fora de seus planos. Ela, cedendo os seus próprios impulsos à vontade do Pai, cumulou a terra de graça e fez com que toda a humanidade se rejubilasse com a presença do próprio Deus feito carne no meio de nós.

Santo Agostinho de Hipona deixa claro a sua satisfação em ver em Maria, o meio concreto pelo qual Deus, Todo-Poderoso, assume uma natureza frágil para resgatar toda a criação através do amor. “Em Cristo, fez-se homem quem fez o homem; nasceu de uma Mãe que Ele criou; foi conduzido por mãos que Ele mesmo formou e nutriu-se de seios que Ele mesmo prodigalizou.” Sermão 188, 2.

Resgate. É incrível pensarmos na condição assumida por Deus para resgatar o gênero humano. O amor de Deus pela sua criação o faz um ser criativo. Ele se reinventa no ventre humano. E se encarna, habitando no meio de nós. Ele se alimenta daquilo que Ele mesmo criou, para significar a vida humana. E ao dignificar a vida humana entrega em nossas mãos a continuidade do resgate de tantas outras vidas. Vidas que vemos abandonadas dormindo nas calçadas das grandes cidades, esquecidas nas mortes fúteis pela ambição dos bens materiais, nas enormes filas em busca de um emprego para sua sobrevivência, negada nos atos discriminatórios de raças, credos, gêneros e orientações de vida e ferida pela ignorância de tantos que não conhecem a tolerância como espaço de encontro das diferenças próprias do seres humanos.

Nesse processo, nos parece formidável percebermos a importância que o simples alcança no processo salvífico. O simples em forma de mulher. Maria reflete a disponibilidade humana diante do transcendente e a capacidade que Deus pôs em cada um de nós de assumirmos o projeto de libertação presente na construção do Reino de Deus. Através do seu exemplo todos nós nos tornamos sinais visíveis da força humana que encontra na esperança de um mundo melhor, o motivo para seguir caminhando e lutando a favor da justiça de uma maioria anônima que geme e sofre a falta de respeito humano.  Anônima como a Menina de Nazaré também o foi, mas que guardava em seu coração, a beleza e o sonho de ver a felicidade se concretizar na presença de seu filho, o Cristo Messias.

Como nos recorda o Sermão 184,1 de Santo Agostinho “uma mulher nos trouxe a vida” e continua a sustentá-la todas as vezes que estamos ao lado da luta pela liberdade e o amor. Maria se faz presença doce e terna na certeza de que somos acolhidos nos braços do Pai independente de nossa condição. A memória do natal nos faz compreender por que Deus quis ter uma mãe e receber o amor materno ao se encarnar no meio de nós. Basta querermos também encarnamos com Ele, por um mundo melhor.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA

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28 nov
Advento: saudades do futuro

Advento é tempo de espera, de vigilância, de preparação e de chegada. É o tempo litúrgico onde o suspiro de expectativa e de esperança não fica sem resposta. O Advento é um brado de esperança.  “O ar está cheio de nossos gritos” (Beckett). A Vinda de Cristo é, portanto, o grande evento que agita os corações, sacode as inteligências, inquieta as pessoas, move as estruturas...Toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente. Quem vive o clima do Advento não é prisioneiro da “cotidianidade”: mantém o olhar fixo no horizonte, para a consolação, para a revelação da glória de Deus. Se o presente é sem sol, ele está seguro da aurora.

 “O futuro é ilusão temperada na fé. Deste, nada se sabe e, no entanto, tudo se espera: o amor ávido, o bem-estar diletante, a irrupção final e feliz do ser que somos e não temos sido” (Frei Betto). Advento é sempre tempo de redescobrir quem somos, o que queremos e para onde vamos. A “mística da gravidez” perpassa todo este tempo, criando em nós uma atitude permanente de espera e fazendo-nos crer na força escondida da vida que continuamente está para nascer. Trata-se de um tempo que alimenta em nós o desejo e a esperança de um “novo parto” da salvação de Deus.

Deus quebrará seu silêncio, a noite escura será iluminada, a primavera substituirá o inverno. O cristão guarda em si o fogo do Espírito Santo, que o mantém sempre vivo, forte, aberto ao futuro. Ele não olha o passado; vê longe e sonha grande. Porque está aberto ao Espírito, não permanece especta-dor e passivo.

Podemos recordar a missão do sentinela, uma das figuras bem conhecidas na história do povo do A.T.  Situado estrategicamente em lugares altos e de amplos horizontes, ele recebe a delicada missão de obser-var, vigiar, discernir e anunciar, para defender a vida do povo .Tal missão implica numa vigilância investigadora do horizonte, onde se fazem perceptíveis os “sinais”, ou até mesmo os indícios de que algo importante para a vida do povo está prestes a acontecer.

Mas não basta captar os sinais. O sentinela deve interpretá-los, quando não são claramente perceptíveis, no horizonte longínquo. Por isso, o sentinela está treinado para “olhar”  a grandes distâncias, para “olhar”  com precisão. Seu “olhar” investigador, aguçado pelo amor ao povo e a fidelidade à missão, está em alerta permanente. “Em meu posto de espreita, meu Senhor, estou firme ao longo do dia,e no meu posto de guarda, permaneço de pé noites inteiras” (Is. 21,8).

O mais específico da função do sentinela é, portanto, a capacidade de “olhar”  corretamente e de anunciar  o que vê, sem se deixar enganar pelas aparências ou por qualquer tipo de engano, sempre em função da defesa daqueles que dependem da sua vigilante perspicácia.

Testemunha fiel, que não se deixa comprar nem subornar, o sentinela é a visibilização da Misericórdia de Javé para com o povo, em meio aos problemas e ameaças da sua história.

Esta atitude de permanente vigilância, de contínua conversão do olhar, é também constitutiva da vocação cristã. Jesus a descreve com uma parábola, na qual a lâmpada acesa é o símbolo do olhar transparente e vigilante que deve caracterizar seus seguidores chamados ao “banquete do Reino”.

Seguidores de Jesus, somos chamados a ser permanentemente, na Igreja e no mundo, sentinelas do Rei-no, capazes de discernir com lucidez e perspicácia as interpelações e os desafios que surgem no hori-zonte da história, e que podem ser ou “boa-nova” para o povo, ou “ameaça e atentado”  à sua vida e dignidade.

Cada momento histórico tem os seus “sinais” que remetem a intervenções misericordiosas de Deus na história dos povos. Devemos, portanto, viver a contínua “conversão do olhar”, que nos permita enxergar e anunciar na arena da história, a presença das bem-aventuranças, a lógica maior do Reino de Deus, os sinais da misericórdia infinita do Pai. A encruzilhada histórica que estamos vivendo parece pedir com mais urgência tal atitude.

Vigiar não significa, portanto, passividade; é ousar renascer, advir, vir-de-novo, recomeçar... Nessa vigilância vislumbramos detalhes decisivos: a vivência da ternura, a reinvenção da vida em cada amanhecer, o criar asas e alçar vôo, o despertar de sonhos, a gratuidade amorosa, a alegria descontrolada...

Espera-se Jesus vivendo os valores que Ele encarnou: o cuidado dos pobres, a misericórdia aos faltosos, a tolerância para com o diferente, o pão de cada dia a todos, o coração dilatado à misteriosa presença do Amor...  “O difícil é esperar. Desespêro é fácil, e é a grande tentação” (Péguy).

Um canto de fé e de esperança segura: esse é o sentido da existência cristã. Com essa espera de Deus, com essa esperança, o cristão pode dar sabor à sua vida, muitas vezes modesta e simples. Ter esperança é, essencialmente, busca incessante, luta por aquilo que não tem lugar agora, mas, acredita-se, terá um dia.

A esperança tem suas raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas. Nos pequenos gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. O Advento nos revela segredos futuros: no ponto final seremos todos acolhidos por Aquele que nos quer “eternos”.  Porque Ele é “terno”. E disso temos saudades.

Padre Adroaldo, sj.

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27 nov
Para proteger a vida, é preciso amá-la

A lembrança das etapas na Tailândia e no Japão marcou a Audiência Geral do Papa Francisco na Praça São Pedro. “Para proteger a vida, é preciso amá-la, e hoje a grave ameaça nos países mais desenvolvidos é a perda do sentido de viver”, alertou.

Ao agradecer às autoridades governamentais e eclesiásticas dos dois países, o Pontífice afirmou que a visita aumentou a sua proximidade e o seu afeto por aqueles povos: “Deus os abençoe com abundância de prosperidade e de paz”.

Povo thai: povo do belo sorriso

Começando pela primeira etapa, Francisco recordou que a Tailândia é um antigo Reino que se modernizou fortemente. O povo “thai” é o “povo do belo sorriso. As pessoas ali sorriem. Encorajei o empenho pela harmonia entre os diversos membros da nação e para que o desenvolvimento econômico possa ir em benefício de todos e sejam sanadas as chagas da exploração, especialmente das mulheres e dos menores”. Sobre a religião budista, parte integrante da história e da vida do povo tailandês, o Papa citou o encontro com o Patriarca Supremo e com os líderes ecumênicos e inter-religiosos.

Com a comunidade católica local, o Pontífice viveu momentos de convívio com os sacerdotes, os consagrados, os bispos, os jesuítas. Celebrou duas missas e conheceu de perto o trabalho do Hospital São Luís em prol dos últimos. “Ali experimentamos que na nova família formada por Jesus Cristo existem também os rostos e as vozes do povo Thai”.

Japão: capacidade extraordinária de lutar pela vida

Depois, foi a vez do Japão, cujo lema “Proteger cada vida” acompanhou a sua visita. O país, afirmou, “carrega impressas as chagas do bombardeio atômico e é em todo o mundo porta-voz dos direitos fundamentais à vida e à paz”.

Em Nagasaki e Hiroshima, o Papa rezou, encontrou sobreviventes e familiares das vítimas. “Reiterei a firme condenação das armas nucleares e da hipocrisia de falar de paz construindo e vendendo artilharia bélica.”

Depois daquela tragédia, prosseguiu, o Japão demonstrou uma extraordinária capacidade de lutar pela vida e o fez inclusive recentemente depois do tríplice desastre de 2011: terremoto, tsunami e acidente na central nuclear.

“ Para proteger a vida, é preciso amá-la, e hoje a grave ameaça nos países mais desenvolvidos é a perda do sentido de viver.”

As primeiras vítimas do vazio de sentido, apontou Francisco, são os jovens. Por isso, dedicou um encontro a eles em Tóquio, aos quais encorajou a se opor a toda forma de bullying, e a vencer o medo e o fechamento abrindo-se ao amor de Deus.

“Auspiciei uma cultura de encontro e diálogo, caracterizada pela sabedoria e amplidão de horizonte. Permanecendo fiel aos seus valores religiosos e morais, e aberto à mensagem evangélica, o Japão poderá ser um país condutor por um mundo mais justo e pacífico e pela harmonia entre homem e meio ambiente.”

Queridos irmãos e irmãs, finalizou o Papa, “confiemos à bondade e à providência de Deus os povos da Tailândia e do Japão”.

Fundação Nizami Ganjavi

Antes da Audiência Geral, o Papa Francisco recebeu os membros da Fundação Nizami Ganjavi. Trata-se de uma organização dedicada à memória do grande poeta do Azerbaijão do século XII, com a finalidade de promover a paz no diálogo e no respeito mútuo.

Francisco encorajou a Fundação a prosseguir neste caminho, sobretudo no que diz respeito ao desafio das mudanças climáticas, convencidos de que a cultura do diálogo é a via mestra, a colaboração é a conduta mais eficaz e conhecimento recíproco é o método para crescer na fraternidade entre as pessoas e os povos.

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19 nov
A esperança transforma a história: por uma pastoral mais escatológica

Na atual conjuntura, o sistema econômico e político neoliberal, lançando suas influências sobre a cultura, faz crescer uma contra utopia do status quo que mergulha o ser humano numa apatia generalizada, negando a este qualquer alternativa de transformação da realidade. Não se tem mais utopias e a esperança parece haver morrido. No entanto, ainda é possível encontrar algumas forças utópicas que insistem em resistir e, dentre elas, a própria mensagem cristã, que desde sua perspectiva escatológica, quer ser uma palavra de esperança para o homem e para o mundo. Todavia, historicamente, percebe-se uma série de deslocamentos da reflexão escatológica e a sua estagnação como um mero tratado teológico que versa, muitas vezes fantasiosamente, sobre o fim da pessoa e do mundo. Não obstante, a redescoberta da escatologia pela teologia contemporânea, sobretudo as contribuições de Jürgen Moltmann, em sua obra Teologia da esperança, nos oferecem uma nova compreensão da escatologia cristã, que entendida na ótica de uma esperança ativa, é capaz de iluminar nossa pastoral e lançar nossas comunidades e a cada um de nós em projetos de transformação da história.

Frei Tailer Douglas Ferreira

- Leia o artigo completo aqui 

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8 nov
Papa afirma: prisões são o reflexo da sociedade que prefere reprimir a educar

É mais fácil reprimir do que educar: palavras do Papa Francisco esta manhã, ao receber em audiência, no Vaticano, os participantes do Encontro sobre o Desenvolvimento Humano Integral e a Pastoral Penitenciária Católica.

Em seu discurso, o Pontífice reiterou o conceito de que a situação dos cárceres segue sendo o reflexo da nossa realidade social e consequência de nosso egoísmo e indiferença sintetizados na cultura do descarte.

Muitas vezes, afirmou, a sociedade procura no isolamento e no encarceramento a solução última aos problemas da vida em comunidade. Para isso, com frequência toma medidas desumanas, justificando-as em uma suposta busca do bem e da segurança, destinando grandes quantidades de recursos públicos para reprimir os infratores. Ao invés, deveria investir energias em procurar a promoção do desenvolvimento integral das pessoas para reduzir as circunstâncias que favorecem a realização do crime.

                                                “ É mais fácil reprimir que educar - diria que é mais cômodo também -, negar a injustiça
                                                    presente na sociedade e criar estes espaços para fechar no esquecimento os infratores,
                                                    do que oferecer igualdade de oportunidades de desenvolvimento a todos os cidadãos.”

Superar a estigmatização

Francisco dedicou ampla parte do seu discurso para falar dos processos de reinserção. Muitos desses processos fracassam porque na experiência prisional o detento vive a sua despersonalização. Já uma verdadeira reinserção social começa garantindo oportunidades de desenvolvimento, educação e acesso à saúde.

O Papa convida a superar a estigmatização de quem cometeu um erro.

“ Se esses irmãos e irmãs já descontaram a pena pelo mal cometido, por que se
coloca sobre seus ombros um novo castigo social com a rejeição e a indiferença?
Em muitas ocasiões, esta aversão socialé um motivo a mais para expô-los
a reincidir nas próprias faltas. ”

Horizonte e maternidade

Antes de concluir, Francisco propôs à reflexão dos presentes duas imagens: a do horizonte e a da maternidade.

Para ele, não se pode falar de punição humana sem horizonte. "Até mesmo a punição perpétua - para mim discutível -, tem que ter um horizonte. Ninguém pode mudar de vida se não vê um horizonte."

A segunda imagem remeteu o Papa a Buenos Aires, quando em visita pastoral observava a fila de mães fora do cárcere para visitar os detentos. Elas não sentiam vergonha, porque iam visitar sem filhos. "Que a Igreja aprenda a maternidade dessas mulheres e aprenda os gestos de maternidade para com os presos."

Silêncio generoso

Por fim, o Papa dirigiu palavras de encorajamento aos agentes de pastoral.

“Peço a Deus por cada pessoa que, a partir do silêncio generoso, serve a estes irmãos, reconhecendo neles o Senhor. Congratulo-me por todas as iniciativas com as quais assistem também pastoralmente às famílias dos detentos e as acompanham neste período de grande provação, para que o Senhor abençoe a todos.”

As Marias do nosso tempo

A Pastoral Carcerária Nacional participou do encontro com o Papa Francisco. O Padre Gianfranco Graziola comentou sobre a mensagem do Pontífice aos presentes, em especial, sobre "as Marias de nosso tempo, que ficam perto da cruz, e dos Cristos crucificados de nossa humanidade":

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5 nov
Promoção vocacional e formação

“Vem e segue-me”. (Mt 19,21)

A origem da vocação encontra-se na iniciativa Divina.
Deus chama, com sua graça, aqueles que Ele quer,
 para uma missão ou serviço.(III Congresso Vocacional do Brasil)

 

A Pastoral Vocacional e a formação para a Vida Religiosa e Sacerdotal tornaram-se instrumentos de grande valor para a Igreja nas últimas décadas, principalmente após o Concílio Vaticano II, quando, pelo impulso do Espírito Santo, a Igreja, aberta ao mundo em suas transformações, foi assumindo um novo ardor missionário e evangelizador. Já em 1964, o Papa Paulo VI instituiu o Dia Mundial de Oração Pelas Vocações. No Brasil, a missão da Igreja após o Vaticano II, com sua voz profética nos tempos da ditadura militar (1964-1985), sua presença esperançosa no meio dos pobres e excluídos, sua opção preferencial pelos jovens à luz da Conferência de Puebla, sua preocupação em organizar as comunidades de base (CEBs), possibilitando que a Palavra de Deus iluminasse a realidade sofrida de nosso povo e ajudasse a organização popular por meio de movimentos sociais e eclesiais na busca de seus direitos. Neste contexto pós Concilio Vaticano II, muitos religiosos(as), sacerdotes, bispos, missionários(as) e evangelizadores leigos se tornaram um exemplo de compromisso com a construção do Reino de Deus, no aqui e agora de nossa história, tornando-se referência vocacional de seguimento a Jesus Cristo.

Neste contexto, a Pastoral Vocacional foi alcançando um lugar de destaque em nossa realidade eclesial e pastoral. Recordemos que no ano de 1983 celebrou­-se em todos os cantos e recantos da Igreja no Brasil, o primeiro ano vocacional. Quem não se recorda ou nunca rezou a oração vocacional criada para aquele ano: “Senhor da Messe e Pastor do Rebanho, faz ressoar em nossos ouvidos teu forte e suave convite: “Vem e segue-me”? Posterior a este período, seguiu-se uma etapa avaliada como sendo de crise vocacional, com significativa diminuição do número de sacerdotes e religiosos(as) e diminuição da vinda de missionários estrangeiros, fruto das mudanças nos diversos contextos da sociedade e da cultura pós-moderna. A crise vocacional, iniciada neste período, trouxe o fechamento de muitas casas e obras mantidas por Ordens e Congregações. Por outro lado, houve uma recuperação no número de vocações masculinas nos países do hemisfério sul, principalmente nos continentes africano e asiático, principalmente as vocações diocesanas. A crise se fortaleceu e é mais sentida, em nossos dias, no hemisfério norte (Europa, EUA, Canadá...), naqueles países tidos anteriormente como grandes celeiros de vocações e de tradição religiosa, de onde partiram muitos missionários(as) em tempos passados.

Vinte anos depois do primeiro ano dedicado às vocações, em 2003, celebrou-se o Segundo Ano Vocacional no Brasil, com o tema: “Batismo, fonte de todas as vocações”, e o lema: “Avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4). Nós Agostinianos da agora nova Província Nossa Senhora da Consolação do Brasil (naquele momento, Vicariato Nossa Senhora da Consolação), vivemos intensamente esses momentos da caminhada da Igreja no Brasil e na América Latina após o Vaticano II, sempre identificados com as Diretrizes da Evangelização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com as orientações da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e da Conferência dos Religiosos da América Latina (CLAR). Durante este período, alguns de nossos Frades estiveram inseridos em Comissões e Diretorias destes organismos da Igreja, demonstrando a comunhão e a sintonia com os novos rumos da Evangelização. Em outros momentos desta caminhada, nosso processo formativo e o trabalho na promoção e animação de novas vocações esteve integrado com outros grupos de Agostinianos e Agostinianas do Brasil. Realizamos experiências de apoio e intercâmbio com outros grupos agostinianos na América Latina, em especial, por cerca de quinze anos, apoiamos o trabalho vocacional e formativo no Vicariato da Bolívia, estivemos por oito anos apoiando a nova presença agostiniana em Cuba e recentemente colaborando num projeto comum de formação no Peru.

Nos últimos anos, o trabalho da Pastoral Vocacional de nossa Província ganhou força e estabilidade, contando com um maior apoio institucional e investimentos econômicos, pedagógicos e metodológicos, assim como, com uma colaboração e envolvimento mais efetivo e constante de nossos formandos e religiosos. Fruto deste trabalho e do testemunho de vida fraterna e comunitária, da acolhida, criatividade, dedicação e zelo para com aqueles que o Senhor da Messe nos confiou, desde o ano 2008 houve um aumento no número de vocacionados acompanhados e de ingresso de candidatos em nossa etapa inicial de formação. Foi possível acompanhar jovens de regiões mais distantes do país e inclusive realizar anualmente encontros na região nordeste e visitar jovens e promover atividades em outras regiões. O ano de 2010 foi um marco para a formação, quando chegamos a ter quarenta e oito jovens em nossas casas de formação. Abriu-se uma nova casa de formação em Belo Horizonte, a Fraternidade Santa Mônica, que acolheu a etapa do Aspirantado até o ano de 2017. Atualmente, a Fraternidade Agostiniana, no Bairro do Barreiro, em Belo Horizonte, é a casa de formação que recebe os jovens para o Aspirantado, Postulantado e Pré-noviciado (Estudos de Filosofia).

Após dez anos de intercambio e apoio de nosso Vicariato ao Teologado de Cochabamba - Bolívia, em 2011 retornamos para a cidade de Diadema, na região metropolitana de São Paulo, onde de 1988 a 1998, mantivemos nosso Teologado, na Fraternidade Santo Dias, região periférica e de grande número de operários. Nos anos de 2009 e 2010 o Teologado esteve provisoriamente na cidade de São Paulo. A Etapa do Noviciado, após quase três décadas funcionando sequencialmente em Bragança Paulista (SP), em 2015 passou a ser realizada em conjunto com outros países da América Latina, sendo a sede na cidade de Lima - Peru, onde continua até os dias de hoje, sendo que o primeiro mestre de noviços deste projeto comum de formação era de nosso Vicariato.

Sabemos que o investimento na formação é um caminho importante para fortalecer nossa presença hoje e no futuro na Igreja do Brasil, após estes noventa anos de caminhada e história. Por isso, olhando para o futuro, atentos aos sinais dos tempos e às mudanças na cultura e na Igreja, o Capítulo Vicarial realizado em dezembro de 2018, criou o Secretariado de Animação Vocacional e Juvenil, estruturando e dando novo impulso e dinamismo ao trabalho com as juventudes e as vocações.

O ano de 2019 se tornou um marco histórico de nossa presença no Brasil, pois ao celebrarmos noventa anos da chegada dos Agostinianos do Escorial (Espanha), o Capítulo Geral Ordinário celebrado em Roma, no dia 16 de setembro elevou nosso Vicariato à categoria de Província, dando novo vigor e ardor missionário e fortalecendo nossa responsabilidade e compromisso na formação de futuros religiosos que promoverão o carisma e a espiritualidade agostiniana no Brasil e continuarão a obra evangelizadora, educacional e assistencial herdada de tantos religiosos, desde os pioneiros que chegaram a partir de 1929 e não tiveram medo de arriscar suas vidas e se colocaram à serviço da Igreja no Brasil, até os atuais religiosos que com dedicação e zelo apostólico e o testemunho de fraternidade, possibilitaram a credibilidade, confiança e reconhecimento que conduziu à criação da Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil.   

Somos conscientes dos grandes desafios que se apresentam para o trabalho da Evangelização e para a Formação de novos religiosos e sacerdotes. A mudança de época que estamos vivendo, com grandes transformações na cultura, na religião, nas instituições que antes eram tidas como sólidas: Família, Igreja, Política, Sociedade, bem como uma mudança de paradigma relacional com o advento e fortalecimento das tecnologias de informação, mídias sociais e meios de comunicação globalizados. Cientes de que o Senhor chama os que Ele quer e de onde quer, neste novo contexto da realidade humana, social, religiosa e cultural que vivemos, é necessário uma boa preparação para ler os sinais dos tempos, uma centralidade e um cuidado da vida espiritual, um testemunho de coerência e fidelidade vocacional, uma vivência dos valores do  Reino de Deus, um compromisso com os grandes temas que atingem a humanidade, entre eles a desigualdade social e o cuidado dos mais pobres e vulneráveis, o cuidado da Casa Comum: meio ambiente-natureza, a promoção da Justiça e da Paz, o diálogo com a sociedade e as culturas, entre outros. Nosso apostolado e missão, abertos aos novos sopros do Espírito, continue colaborando na promoção de muitas vocações para a construção de uma sociedade mais justa, fraterna, solidária, inclusiva e acolhedora, como reflexo da presença do Reino no meio de nós.

Recentemente (setembro de 2019), a Igreja do Brasil realizou o 4º. Congresso Nacional da Vocacional, buscando refletir sobre o tema das vocações em nossa realidade eclesial e situar as vocações na pastoral de conjunto da Igreja. A Igreja entende que os novos contextos sócio-eclesiais exigem ousadia na apresentação de propostas vocacionais e a promoção, com urgência, de uma cultura vocacional. O Congresso Vocacional buscou provocar a necessidade de se refletir sobre o sentido último da vida, sobre a necessidade da oração em prol das vocações e acima de tudo expandir o tema vocacional para todos os âmbitos eclesiais e sociais, principalmente sobre a arte do discernimento vocacional tão urgente e necessário no apostolado da Igreja.

Que o Espírito Santo torne fecundo o trabalho vocacional e formativo de nossa Província e ilumine a nova geração de consagrados e consagradas para que colaborem, através da mística e da profecia, para que as pessoas experimentem o amor de Deus e a vida em plenitude pela qual Jesus Cristo entregou sua vida.

 

Frei Márcio Antonio Vidal de Negreiros - OSA

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28 out
A atualidade de Santo Agostinho: uma perspectiva teológico-pastoral

Resumo

Este artigo pretende abordar a atualidade de Santo Agostinho a partir de uma perspectiva teológico-pastoral. O pensamento e a espiritualidade de Santo Agostinho (354-430) sobreviveram na cultura ocidental como uma das contribuições mais vigorosas do cristianismo e sua experiência de vida, bem como seu legado espiritual, filosófico e teológico trazem profundas intuições na busca de resposta às grandes questões dos homens e mulheres de todos os tempos. Sua conversão é um “evento hermenêutico” que se constitui como chave de leitura para a compreensão de sua vida e sua obra. Sua teologia foi-se construindo na sua experiência de pastor por mais de quarenta anos em Hipona (na atual Argélia), norte da África. Destaca-se aí sua contribuição como “pacificista”, com uma prática que foi tematizada tanto em suas obras formais como nas suas pregações e correspondência. A recente descoberta de novas cartas e sermões de Santo Agostinho revela um lado pouco conhecido do Doctor Gratiae. O aspecto político de seu pensamento, uma das abordagens mais atuais da pesquisa sobre suas obras, permite-nos uma aproximação ao tema
da Campanha da Fraternidade de 2009, “Fraternidade e Segurança Pública”, lançada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Palavras-chave: Espiritualidade; Conversão; Jesus Cristo; Pastoral; Paz.

Autor: Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA

- Leia o artigo completo aqui:

atualidade-de-santo-agostinho.pdf

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21 out
Pacto das Catacumbas pela Casa Comum

Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana

Nós, participantes do Sínodo Pan-amazônico, partilhamos a alegria de habitar em meio a numerosos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, migrantes, comunidades na periferia das cidades desse imenso território do Planeta. Com eles temos experimentado a força do Evangelho que atua nos pequenos. O encontro com esses povos nos interpela e nos convida a uma vida mais simples de partilha e gratuidade. Marcados pela escuta dos seus clamores e lágrimas, acolhemos de coração as palavras do Papa Francisco: “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”[1].

Evocamos com gratidão aqueles bispos que, nas Catacumbas de Santa Domitila, ao término do Concílio Vaticano II, firmaram o Pacto por uma Igreja servidora e pobre[2]. Recordamos com veneração todos os mártires membros das comunidades eclesiais de base, de pastorais e movimentos populares; lideranças indígenas, missionárias e missionários, leigas e leigos, padres e bispos, que derramaram seu sangue, por causa desta opção pelos pobres, por defender a vida e lutar pela salvaguarda da nossa Casa Comum[3]. À gratidão por seu heroísmo unimos nossa decisão de continuar sua luta com firmeza e coragem. É um sentimento de urgência que se impõe ante as agressões que hoje devastam o território amazônico, ameaçado pela violência de um sistema econômico predatório e consumista.

Diante da Trindade Santa, de nossas Igrejas particulares, das Igrejas da América Latina e do Caribe e daquelas que nos são solidárias na África, Ásia, Oceania, Europa e no norte do continente americano, aos pés dos apóstolos Pedro e Paulo e da multidão dos mártires de Roma, da América Latina e em especial da nossa Amazônia, em profunda comunhão com o sucessor de Pedro, invocamos o Espírito Santo, e nos comprometemos pessoal e comunitariamente com o que se segue:

1. Assumir, diante da extrema ameaça do aquecimento global e da exaustão dos recursos naturais, o compromisso de defender em nossos territórios e com nossas atitudes a floresta amazônica em pé. Dela vêm as dádivas das águas para grande parte do território sul-americano, a contribuição para o ciclo do carbono e regulação do clima global, uma incalculável biodiversidade e rica socio diversidade para a humanidade e a Terra inteira.

2. Reconhecer que não somos donos da mãe terra, mas seus filhos e filhas, formados do pó da terra (Gn 2, 7-8)[4], hóspedes e peregrinos (1 Pd 1, 17b e 1 Pd 2, 11)[5], chamados a ser seus zelosos cuidadores e cuidadoras (Gn 1, 26)[6]. Para tanto, comprometemo-nos com uma ecologia integral, na qual tudo está interligado, o gênero humano e toda a criação porque a totalidade dos seres são filhas e filhos da terra e sobre eles paira o Espírito de Deus (Gn 1, 2).

3. Acolher e renovar a cada dia a aliança de Deus com todo o criado: “De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco, aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra que convosco saíram da arca (Gn 9, 9-10 e Gn 9, 12-17[7]).

4. Renovar em nossas igrejas a opção preferencial pelos pobres, em especial pelos povos originários, e junto com eles garantir o direito de serem protagonistas na sociedade e na Igreja. Ajudá-los a preservar suas terras, culturas, línguas, histórias, identidades e espiritualidades. Crescer na consciência de que estas devem ser respeitadas local e globalmente e, consequentemente favorecer, por todos os meios ao nosso alcance, que sejam acolhidas em pé de igualdade no concerto mundial dos demais povos e culturas.

5. Abandonar, como decorrência, em nossas paróquias, dioceses e grupos toda espécie de mentalidade e postura colonialista, acolhendo e valorizando a diversidade cultural, étnica e linguística num diálogo respeitoso com todas as tradições espirituais.

6. Denunciar todas as formas de violência e agressão à autonomia e direitos dos povos originários, à sua identidade, aos seus territórios e às suas formas de vida.

7. Anunciar a novidade libertadora do evangelho de Jesus Cristo, na acolhida ao outro e ao diferente, como sucedeu com Pedro na casa de Cornélio: “Vós bem sabeis que a um judeu é proibido relacionar-se com um estrangeiro ou entrar em sua casa. Ora, Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro” (At 10, 28)[8].

8. Caminhar ecumenicamente com outras comunidades cristãs no anúncio inculturado e libertador do evangelho, e com as outras religiões e pessoas de boa vontade, na solidariedade com os povos originários, com os pobres e pequenos, na defesa dos seus direitos e na preservação da Casa Comum.

9. Instaurar em nossas igrejas particulares um estilo de vida sinodal, onde representantes dos povos originários, missionários e missionárias, leigos e leigas, em razão do seu batismo, e em comunhão com seus pastores, tenham voz e voto nas assembleias diocesanas, nos conselhos pastorais e paroquiais, enfim em tudo que lhes compete no governo das comunidades.

10. Empenhar-nos no urgente reconhecimento dos ministérios eclesiais já existentes nas comunidades, exercidos por agentes de pastoral, catequistas indígenas, ministras e ministros e da Palavra, valorizando em especial seu cuidado em relação aos mais vulneráveis e excluídos.

11. Tornar efetiva nas comunidades a nós confiadas a passagem de uma pastoral de visita a uma pastoral de presença, assegurando que o direito à Mesa da Palavra e à Mesa de Eucaristia se torne efetivo em todas as comunidades.

12. Reconhecer os serviços e a real diaconia do grande número de mulheres que hoje dirigem comunidades na Amazônia e procurar consolidá-los com um ministério adequado de mulheres dirigentes de comunidade.

13. Buscar novos caminhos de ação pastoral nas cidades onde atuamos, com protagonismo de leigos e jovens, com atenção às suas periferias e aos migrantes, aos trabalhadores e aos desempregados, aos estudantes, educadores, pesquisadores e ao mundo da cultura e da comunicação[9].

14. Assumir diante da avalanche do consumismo um estilo de vida alegremente sóbrio, simples e solidário com os que pouco ou nada tem; reduzir a produção de lixo e o uso de plásticos, favorecer a produção e comercialização de produtos agroecológicos, utilizar sempre que possível o transporte público.

15. Colocar-nos ao lado dos que são perseguidos pelo profético serviço de denúncia e reparação de injustiças, de defesa da terra e dos direitos dos pequenos, de acolhida e apoio a migrantes e refugiados. Cultivar amizades verdadeiras com os pobres, visitar as pessoas mais simples e os enfermos, exercitando o ministério da escuta, da consolação e do apoio que trazem alento e renovam a esperança. Conscientes de nossas fragilidades, de nossa pobreza e pequenez diante de tão grandes e graves desafios, confiamo-nos à oração da Igreja. Que sobretudo nossas Comunidades Eclesiais nos socorram com sua intercessão, afeto no Senhor e, sempre que necessário, com a caridade da correção fraterna.

Acolhemos de coração aberto o convite do Cardeal Hummes para nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo nestes dias do Sínodo e no retorno às nossas igrejas:

“Deixem-se envolver no manto da Mãe de Deus e Rainha da Amazônia. Não deixemos que nos vença a auto-referencialidade, mas sim a misericórdia diante do grito dos pobres e da terra. Será necessária muita oração, meditação e discernimento, além de uma prática concreta de comunhão eclesial e espírito sinodal. Este sínodo é como uma mesa que Deus preparou para os seus pobres e nos pede a nós que sejamos aqueles que servem à mesa”[10].

Celebramos esta Eucaristia do Pacto como “um ato de amor cósmico. “Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja de aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo”. A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico “a criação propende para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador”. “Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira”.[11]

Catacumbas de Santa Domitila
Roma, 20 de outubro de 2019

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18 out
O perdão é o homem em relação

O mundo atual é feito de relações que, muitas vezes, não possuem respaldo concreto na solidariedade que deve haver entre os seres humanos. As marcas destes desafetos gerados por estas relações podem ser vistas em nossa sociedade através de doenças, guerras, falta de trabalho, fome e tantas outras mazelas sociais. Na verdade, é a dignidade humana que se encontra ferida pela falta de um sentimento coletivo, muitas vezes lembrado, mas poucas vezes praticado, que é o perdão.

Agostinho de Hipona nos lembra muito bem que “Aquele que ofendeu a uma pessoa atraiu para si a sua perdição, pois não escutou a voz do teu Senhor.” (Sermão 114, 2). A raiz das nossas relações está no amor. Amor que devemos nutrir por todos e que verdadeiramente o temos se colocamos o mandamento de Deus em prática, através de nossas ações para com os nossos semelhantes. A falta de perdão é um sinal de que não conseguimos colocar esta verdade em prática. A falta de perdão se sobrepõe à nossa oração, pois desta forma o que falamos em nosso íntimo com Deus não conseguimos vivê-lo com o nosso próximo. “Perdoame como eu perdôo. É isto que diz na oração do Pai Nosso. Esta é a regra. Se queres que teu pedido de perdão seja acolhido por Deus, perdoa tu ao que te pede perdão.” (Carta 171 A, 1). Este descompasso entre a teoria e a prática de nossa fé causa todo o tipo de desarmonia em nossas relações interpessoais e que atingem as nossas famílias, comunidades e sociedades.

Em sua atividade pastoral como Bispo, Agostinho, já percebia que a dimensão do perdão é colocada como algo pequeno e justificável, ou seja, se põe um grande relevo sobre a ofensa muito mais do que a conseqüência do ato de não perdoar no seio da comunidade dos homens. “Não digas: ‘É uma coisa pequena, e logo se remedia’. Sem perdão nada e ninguém se remediarão sozinhos” (Sermão 114, 5). O perdão não vivenciado gera contenda. O desafeto entre irmãos produz mal estar no meio da comunidade e faz com que todo o corpo de Cristo, que é a Igreja, também fique enfermo. Esperar que o outro venha pedir perdão, também, não deixa de ser uma forma de banalizar os efeitos da falta de perdão. As inimizades e os rancores machucam o coração do cristão, paralisam a suas ações no mundo e não o deixam testemunhar a ressurreição de Cristo, que nada mais é do que transformar os momentos de morte em vida em plenitude a toda humanidade. “Não retenha em teu interior inimizade contra ninguém, porque maior é o mal que estes rancores causam em teu coração.” (Comentário a São João 1, 9).

O perdão é o homem em relação. Em relação com os outros, com a natureza e com Deus. “Eu te peço perdão de meus pecados e Tu queres que haja alguém a quem eu possa perdoar.” (Sermão 82, 4). Agostinho já intuía esta verdade em seu coração. Que além do perdão ajudar a libertar o coração do cristão, sanava o corpo da Igreja e restabelecia a harmonia das relações no mundo, porque a dinâmica do perdão evoca a presença de Deus àqueles que são atingidos pela graça do perdão. Basta, a cada um de nós tomar a iniciativa do perdão. Por que esperar que o outro venha pedir perdão? Por que se fazer de vítimas ou de indiferentes nas relações com os demais? Por que adiar a graça que Deus quer derramar sobre nós? “Eu quero ser perdoado. Então perdoarei. Esquecerei as ofensas que me foram proferidas e serão esquecidos os meus delitos. Quero receber. Então, darei. Somente assim, me será dado.” (Sermão 83, 2)

*Frei Arthur Vianna Ferreira, osa.
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4 out
Sínodo da Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia integral

Dom Romualdo Matias Kujawski
Bispo de Porto Nacional e Membro Sinodal

 

“Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto!” (Rm 8, 22)

Durante os dias compreendidos entre 06 e 27 de Outubro de 2019 realizar-se-á, no Vaticano, o Sínodo que congregará os Bispos da Região Pan-Amazônica, para refletir e partilhar o seguinte tema: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. O documento de trabalho deste Sínodo: “Instrumentum Laboris” foi publicado no dia 17 de Junho deste ano. O texto é composto por 147 pontos divididos em 21 capítulos separados por três partes: A primeira parte se titulada “a voz da Amazônia” e tem a finalidade de apresentar a realidade do território e de seus povos. Na segunda parte, intitulada “Ecologia integral: o clamor da terra e dos pobres,” adverte-se sobre a “destruição extrativista”, abordam questões relevantes como “os povos indígenas em isolamento voluntário (PIAV)” e outros fenômenos de interesse mundial, como “a migração”, “a urbanização”, “a família e a comunidade”, “a saúde”, “a educação integral” e “a corrupção”. Na terceira e última parte do documento, encontramos os escritos sobre os desafios e esperanças da região e incentiva a Igreja a ter um papel “profético na Amazônia”, apresentando “a problemática eclesiológica e pastoral” da região.

Seguem abaixo algumas perguntas e respostas sobre esse tema, que poderão dirimir certas dúvidas que possam existir:

Primeiramente, o que é o Sínodo?

A palavra “sínodo” vem de duas palavras gregas: syn”, que significa “juntos”, e hodos”, que significa “estrada ou caminho”. Logo, o Sínodo dos Bispos pode ser definido como uma reunião do episcopado da Igreja Católica com o Papa para discutir algum assunto em especial, auxiliando o Santo Padre no governo da Igreja.

Quais os assuntos serão tratados no Sínodo?

No centro das deliberações será a situação dos povos da Amazônia. O “Instrumentum Laboris” destaca os problemas, que surgem da exploração descontrolada da riqueza natural da Amazônia e afetam a ecologia da Região. Entre os grandes problemas destacam-se os desmatamentos, garimpos descontrolados, grandes projetos hidroelétricos, monoculturas e desrespeito às tribos indígenas, suas culturas e territórios de domínio.

Entre os temas eclesiásticos encontram-se as questões das tradições locais e assistência pastoral no vasto território da Amazônia. Outro ponto, até bastante polêmico é o estudo da possibilidade de, na falta das vocações sacerdotais serem ordenados homens casados, de boa índole moral e provenientes das comunidades locais. Não se pode esquecer que a Igreja sempre cresce e se organiza a partir da Eucaristia. Também devem ser repensadas as funções dos leigos como lideranças nas comunidades, além de ampliar as tarefas destinadas às mulheres.

Quem participará do Sínodo?

Os Bispos Diocesanos de todas as nove províncias eclesiásticas da Região Pan-amazônica, incluindo Bolívia, Brasil, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guianas e Suriname. Também participarão alguns membros dos dicastérios da Cúria Romana, membros da eclesial rede Pan-amazônica (REPAM) e representantes do Conselho que prepararam o Sínodo.

Além disso, estarão presentes alguns religiosos que se envolvem pastoralmente na Amazônia, escolhidos pelos Superiores Gerais. O Papa Francisco também nomeou alguns peritos, leigos e eclesiásticos, que ajudarão na redação dos documentos do Sínodo. Terão direito à voz os representantes do “grito do povo” amazonense. O quadro então se completa com os observadores, os delegados das Igrejas Cristas, que atuam na Amazônia e representantes das Instituições e religiões não cristas.

Como trabalhará o Sínodo?

Estão previstos debates, plenárias com a presença do Papa, além dos trabalhos realizados em pequenos grupos de articulação em relação aos assuntos. A tarefa importante de sintetizar os debates cabe ao relator geral do Sínodo, Cardeal Cláudio Humes (Brasil), que é também Presidente da REPAM. Ele terá dois secretários especiais: Dom David Martinez de Aguirre Guinea (Vigário Apostólico de Puerto Maldonado – Peru) e Frei Michael Czerny da Cúria Romana (Dicastério dos Migrantes, Refugiados e Desenvolvimento Integral da Pessoa Humana). Um grande conselheiro que também participará será D. Erwin Kreuter, Bispo Emérito da Prelazia do Xingu do Araguaia (Brasil).

Porque este Sínodo é tão importante para a Igreja?

A Região da Amazônia é chamada de “pulmões verdes do mundo” e por isso é considerado importante em sua influência para o clima de todo o planeta. Assim sendo, todos os abusos ecológicos na Amazônia influenciam negativamente para toda humanidade.

No contexto eclesial, as novas propostas pastorais no território amazonense podem tornar-se modelos para outras Igrejas locais. Com ressalvas é claro, porque não se poderão copiar soluções pastorais na Amazônia em toda a Igreja.

O que acontecerá com os resultados do Sínodo?

Na última semana, os membros do Sínodo trabalharão a redação final do documento, que será entregue ao Santo Padre, o Papa Francisco. Este documento não causará nenhum efeito jurídico. Caberá ao Papa a publicação do documento final, na forma de Exortação Apostólica Pós-sinodal.

Contamos com vossas orações.

 

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26 set
O perdão mostra a qualidade da nossa fé

* Papa Francisco

Estevão «repleto do Espírito Santo» entre  diakonia e martyria. Este foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (25/09), realizada na Praça São Pedro, com milhares de fiéis e peregrinos.

O Pontífice deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre o Livro dos Atos dos Apóstolos para “seguir a viagem do Evangelho no mundo”. O evangelista Lucas mostra, com realismo, a fecundidade dessa viagem e o surgimento de alguns problemas na comunidade cristã.

Como harmonizar as diferenças que existem dentro da comunidade cristã sem que ocorram contrastes e divisões?

“A comunidade não acolhia somente os judeus, mas também os gregos, ou seja, pessoas provenientes da diáspora, não judeus, com suas culturas e sensibilidades. Também de outra religião. Nós, hoje, dizemos “pagãos”. Eles eram acolhidos. Essa coexistência determina equilíbrios frágeis e precários, e diante das dificuldades emerge o “joio”. E qual é o joio que destrói a comunidade? O joio da murmuração, o joio da fofoca. Os gregos murmuram pela falta de atenção da comunidade em relação às viúvas.”

“Como os Apóstolos agem diante desse problema?”, perguntou o Papa.

Oração e pregação da Palavra de Deus

“Iniciam um processo de discernimento que consiste em considerar bem as dificuldades e procurar soluções em conjunto. Encontram uma saída ao dividir as tarefas por um crescimento sereno de todo o corpo eclesial e para não transcurar a “corrida” do Evangelho e a atenção aos membros mais pobres.”

Segundo Francisco, “os Apóstolos estão cada vez mais conscientes de que a sua vocação principal é a oração e a pregação da Palavra de Deus: rezar e anunciar o Evangelho, e resolvem o problema instituindo um grupo de «sete homens de boa fama, repletos do Espírito Santo e de sabedoria», que depois de receberem a imposição das mãos, se encarregam de servir às mesas. Os diáconos são criados para isso, para o serviço. O diácono, na Igreja, não é um segundo sacerdote. Não, não. É outra coisa”.

O diácono não é para o altar, não: é para o serviço. Ele é o guardião do serviço na Igreja. Quando um diácono gosta muito de ir para o altar, ele está errado. Este não é o seu caminho. Essa harmonia entre serviço à Palavra e serviço à caridade é um fermento que faz crescer o corpo eclesial.

“Criam sete diáconos”, frisou o Papa, e dentre eles destacam-se Estevão e Felipe. “Estevão evangeliza com força parresia (audácia), mas sua palavra encontra resistências. Não encontrando outra maneira de fazê-lo desistir, os seus adversários escolhem a solução mais mesquinha para aniquilar um ser humano: ou seja, a calúnia ou falso testemunho. Nós sabemos que a calúnia mata. Sempre.”

Calúnia, câncer diabólico

“ Esse “câncer diabólico” que é a calúnia, que nasce do desejo de destruir a reputação de uma pessoa, também agride o resto do corpo eclesial e o danifica seriamente quando, devido a interesses mesquinhos ou para encobrir as próprias falhas, se aliam para difamar alguém. ”

“Levado ao Sinédrio e acusado de falso testemunho, fizeram o mesmo com Jesus e o mesmo farão com todos os mártires: falsos testemunhos, calúnias”, frisou o Papa.

Estêvão proclama uma releitura da história sagrada centrada em Cristo, para se defender.

“A Páscoa de Jesus morto e ressuscitado é a chave de toda a história da Aliança. Estêvão denuncia corajosamente a hipocrisia com a qual os profetas e o próprio Cristo foram tratados. «A qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram? Eles mataram aqueles que anunciavam a vinda do Justo, do qual agora vocês se tornaram traidores e assassinos». Não usa meio termo, Estêvão fala claro, diz a verdade. Isso causa a reação violenta dos ouvintes, e Estêvão é condenado à morte, à lapidação”, sublinhou o Pontífice. Ele coloca “a sua vida nas mãos do Senhor e a sua oração é linda naquele momento: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito» e morre como filho de Deus perdoando: «Senhor, não os condenes por este pecado.»”

A Igreja de hoje é rica de mártires

Segundo Francisco, “essas palavras de Estevão nos ensinam que não são os bonitos discursos que revelam a nossa identidade como filhos de Deus, mas apenas o abandono da vida nas mãos do Pai e o perdão aos que nos ofendem nos mostram a qualidade da nossa fé”.

“A Igreja de hoje é rica de mártires – hoje existem mais mártires do que no tempo do início da Igreja, e os mártires estão por toda parte; a Igreja é irrigada pelo seu sangue que é a “semente de novos cristãos” e garante crescimento e fecundidade ao povo de Deus. Os mártires não são “santinhos”, mas homens e mulheres de carne e osso que, como diz o Apocalipse, “lavaram suas vestes, tornando-as brancas no sangue do Cordeiro”. Eles são os verdadeiros vencedores”, concluiu o Papa.

 

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23 set
Convivência como forma de educar socialmente para os direitos humanos

Frei Arthur Vianna Ferreira*

A Pedagogia Social, como campo teórico é algo que se faz na construção diária de educadores sociais que organizam práticas socioeducativas que proporcionem os indivíduos a transformarem, da melhor maneira possível, as realidades sociais vividas na vulnerabilidade de seus grupos sociais.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 proporciona uma reflexão positiva para as práticas socioeducativas cotidianas desses educadores sociais. Os conteúdos consensuados e expostos nesse documento passam a ser uma possibilidade de início de organização de conteúdos mínimos para o ambiente educacional não escolar e práticas socioeducativas realizadas em instituições sociais, públicas e privadas, que promovem relações humanas dignas, que respeitem as diversas manifestações da humanidade no interior dos grupos sociais.

No Brasil, a educação nos valores expostos pelos Direitos Humanos é legitimada através do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos de 2007 (PNEDH-2007) ainda pouco divulgado e trabalhado em sua integralidade entre os próprios equipamentos sociais responsáveis por essas práticas socioeducativas. Vale ressaltar, que esse documento apresenta um capítulo específico para as práticas socioeducativas em espaços não escolares e/ou não formal e que muitas vezes não são devidamente aprofundados na formação inicial e/ou continuada dos profissionais da educação no país.

A Pedagogia da Convivência, proposta por Jares (2005) como um campo teórico-prático de atuação para educadores sociais, se apresenta como uma reflexão relevante sobre a organização de um conteúdo básico e inicial a ser trabalhado pelos profissionais da educação com os jovens e adultos dentro e fora do ambiente escolar. A partir de elementos retirados dos Direitos Humanos de 1948, a pedagogia da convivência propõe uma metodologia que faça os responsáveis pelas práticas socioeducativas a pensarem sobre os conteúdos a serem trabalhados com as camadas empobrecidas e os temas mais relevantes das práticas de educação social.

Jares (2004) afirma que os conteúdos propostos pelos Direitos Humanos são fundamentais para pensarmos em uma convivência pedagógica que leve os indivíduos às práticas educativas que suscitem relações sociais saudáveis em situações de extrema diferença entre os indivíduos, os seus grupos sociais e os seus interesses pessoais e coletivos. Segundo o autor, a educação para e a partir dos direitos humanos deve promover uma educação para a verdade e a convivência pacífica entre os seres humanos (o que não excluiu os processos de conflitos e/ou limitações oriundos das relações sociais).

Assim, podemos inferir que para Jares (2005; 2007) os direitos humanos se constituem em um campo axiológico da aprendizagem que está alicerçado no valor à vida e que deve ser/fazer parte do ensino-aprendizagem nos espaços não escolares. Esse é o maior bem que emanam todos os tipos de educação cujo objetivo é educar o ser humano para estar no mundo. E, por isso, independente dos sujeitos sociais ou da situação de vulnerabilidade social em que os grupos se apresentam, o educador social deve levar em consideração esse valor social em todo o seu planejamento socioeducativo.

Contudo, o valor à vida, como conteúdo basilar de construção de práticas socioeducativas, se desdobra em três aspectos educacionais importantes para o bom êxito do desenvolvimento de práticas de convivência na educação em espaços não escolares: a educação para a solidariedade, que deverá promover uma reflexão sobre a pobreza e a justiça vivida pelos grupos sociais; uma educação para a não violência, que suscitará repensar sobre o ódio presente nas relações sociais, a não criação de maniqueísmo ou a derrubada da criação de inimigos na convivência social; e, a educação para a dignidade humana que buscará entender os outros dois elementos importantes nas relações sociais: o medo, inerente à convivência humana com aquilo que pode desestruturar as representações sociais e cognitivas de um grupo sociail sobre o mundo ao seu redor; e, a democracia, como possibilidade dos indivíduos serem e estarem no mundo, participando ativamente como cidadãos e da política local, assim como levando a cabo, a vivência dos direitos humanos como parte constitutiva de nossa existência.

Enfim, os valores apresentados pelos direitos humanos é parte da convivência social. Ambos devem ser pontos fulcrais do trabalho do profissional da educação que se encontra nos campos educacionais não escolares. De fato, entender a Declaração dos Direitos Humanos e engajar-se em uma educação para os Direitos Humanos possibilita a uma reflexão sobre o exercício de sua docência de forma ampliada.

Assim, desprendidos dos conteúdos postos pelos currículos da educação formal, o profissional da educação pode exercer a sua docência através de um processo de ensino-aprendizagem que contenha os conteúdos necessários para que os grupos sociais em estado de vulnerabilidade social possam utilizar suas potencialidades para iniciar seus processos de emancipação e transformação social. A convivência e direitos humanos se entrelaçam para se constituir parte de uma Pedagogia Social que promova não somente a formação inicial e continuada do educador social, mas também seja eficaz e eficiente para os grupos sociais empobrecidos atendidos pelas práticas da educação social.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasilia: SEEDH-MEC, 2007.

JARES, Xesús. Pedagogia da Convivência.São Paulo:Pala Athenas, 2008.

_____. Educar para a verdade e para a esperança. Porto Alegre: Artmed, 2005.

_____. Educar para a paz em tempos difíceis. São Paulo: Pala Athenas, 2007.

_____. Educação para a Paz: sua teoria e sua prática. Porto Alegre: Artmed, 2002.

_____. Educación e Dereitos Humanos: estratexias didácticas e organizativas. Galicia: Edición Xerais, 2000.

 

*Frei da Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil 
Doutor em Psicologia da Educação – PUC SP
Professor Adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro


Imagem de destaque: Divulgação/ONU

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